sábado, 30 de janeiro de 2016

Mundo Vertical















É com ação no coração
que se desenha a palavra
e a mão na massa, então,
vai dando forma ao que se passa.
O silêncio em timidez
é  temporal que se desata
e o fermento em pão francês
no alicerce de uma fala
abre o mundo em vertical,
foguete rumo ao paraíso.
E o amor fenomenal
que era guardado num sorriso
não é mais a amizade encabulada,
misturada nesse medo de amar.
Numa praça, numa nuvem de cinema,
desabrocha a flor bonita do poema
e agora, o jardim do sentimento elabora
o azul de um novo tempo.

(É o amor, o vento esperado
no quintal calado e solitário.
A enchente da felicidade
nos envolve agora, nessa liberdade). 


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Alquimia





















Sol de dentro fez um vento,
fez um lance de invento
e a tristeza que operava
na trincheira de batalha,
foi-se embora numa fila
numa trilha de formiga.
Foi levando seu queixume
para o alto de um cume
onde o vento assoprava
na leveza de uma palha
e a moça da janela,
com o coração em luto,
numa lua de mercúrio
embarcou-se numa vela
que buscava outro rumo
em que o cinza e o chumbo
não se espalham como fungo
e o calor de uma folia
é constante garantia.


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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Antiga Cantiga





















Ana, daquela vez que te encontrei numa folia italiana,
vestias um longo vestido e tocavas um alaúde.
Por isso, embevecido, olhar-te foi só o que pude.
Era a primeira vez em que eu te via
e a Idade Média em guerras ardia.
Desci do meu cavalo e saudei-te na rua
no cumprimento dos templários.
Depois, desapareci nas Cruzadas
levado pelo século em longas asas,
e fiquei todo este tempo sem te esquecer.

No movimento revoluto que gira a roda,
eu te encontro agora, Ana,
com o mesmo sorriso de antigamente
e esse brilho de sempre.
Agora, possuis outro nome e ao meu lado andas.
Estamos apaixonados neste esquecimento
e entrelaçados numa pretérita história
que ao presente não importa,
mas por ela posso ver que o Amor é reincidente,
unindo obstinadamente distâncias ausentes
das partes companheiras 
com a mesma atração que emoldura as estrelas.


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sábado, 7 de novembro de 2015

Vulto de Rosa
















Uma senhora sorri e me olha com olhos fixos
que dizem-me algo
da profundeza dos náufragos
onde a silenciosa alga vive
em forma de bandeira e trabalha
como quem não almeja
a glória fugaz de um espetáculo;
onde cintilam os astros
no fundo mais profundo do vasto pasto
em que não sou ninguém senão um vento,
um quantum de energia, um pensamento...
É sorrindo que ela me olha ternamente
e diz coisas tão lindas e silenciosas,
que o alcance precário das palavras
apenas contempla sua galáxia luminosa.
Pergunto qual é o seu nome
e ela, misteriosa, sorri
nesta expressão tão familiar!
É como se a alma abrisse o seu mar
e uma sinfonia de sereno chegasse num simples aceno
para eu entender coisas que nunca aprendi
dentro desse olhar carinhoso de flecha
com que ela me atravessa e me diz que está aqui.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Presença













Mas qual é o mérito
de um cemitério
se lá depositam-se
as casquinhas de um pretérito?
Se lá se desgastam
antigas roupas velhas
que já não servem?
Se no adro dos espaços
andam em meio a flores
e sabiás canoras
aqueles que acreditam-se
que foram embora?
O que dorme em minério
é um rio seco,
um galho vesgo,
uma pedra a esmo.
O ouvido do espírito, não,
está no vento pleno,
pulsante e vivo
e, mesmo que invisivelmente
pareça ausente,
pode, muitas vezes 
com o coração,
ser sentido.


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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Festa












Em tempo de chuva
bunda de tanajura
é igual jabuticaba:
nunca que acaba.

Vai correndo, Duda,
com a mão na lata,
chamando à luta,
a meninada!

Cai na gordura,
cai embalada,
pois a fritura
é farofada!

Vem tanajura,
vem despencada
enquanto a chuva
deu uma parada!



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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Vestido Branco














Na educação dos afetos, 
canta a voz do sereno
a melodia em libra 
porque é tamanha
a harmonia que a ela 
nada escapa
ou se desperdiça.

Sua voz enigmática 
acalma as borrascas
e no solo seco florescem carinhos.

Onde insistiam-se os desacordos,
desmancha-se o ponto lodoso,
e as contrariedades ficam sorrindo.

Apagou-se de vez o fogo intermitente
fadado a durar inclemente.
A ofensa, que nasceu para durar um século,
não causa mais dor ou dano de espécie alguma.
Chegou o perdão com um sopro de abano,
trazendo a paz que a tudo cura.
Na troca da paixão por compaixão,
transforma-se todo o efeito da música.


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