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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Vestido Branco














Na educação dos afetos, 
canta a voz do sereno
a melodia em libra 
porque é tamanha
a harmonia que a ela 
nada escapa
ou se desperdiça.

Sua voz enigmática 
acalma as borrascas
e no solo seco florescem carinhos.

Onde insistiam-se os desacordos,
desmancha-se o ponto lodoso,
e as contrariedades ficam sorrindo.

Apagou-se de vez o fogo intermitente
fadado a durar inclemente.
A ofensa, que nasceu para durar um século,
não causa mais dor ou dano de espécie alguma.
Chegou o perdão com um sopro de abano,
trazendo a paz que a tudo cura.
Na troca da paixão por compaixão,
transforma-se todo o efeito da música.


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sábado, 14 de junho de 2014

A bola


















Para o Sol, que é a bola do futebol,
não há chute fútil,
não há chute fácil.
A rede do time adversário
é parte imprescindível do espetáculo.
É lá que ela, a bola, busca o tempo
todo amanhecer através dos pés
ao desenhar-se como se fosse o pão
na fome de se atingir a meta.
Torna-se, assim, para o alvo, a seta.
No suado trajeto que é traçado
é como se o universo, reinventado,
estivesse reduzido a um retângulo
e o movimento dos astros,
como que brindando-o,
organizasse uma festa neste cenário.
E assim, rola a bola pelas laterais e no meio,
voa de um ponto a outro de todo jeito,
buscando o destino do corpo,
e desenha-se no anseio
para a cabeça ou o peito que a amortece
num diálogo de quem a conhece.
De repente, no passe
criado no lampejo de um segundo,
amanhece outra vez o mundo
quando a rede se ilumina.
É gol!! Que jogada linda!!!Chegou o novo dia.
Podemos, agora, extravasar a alegria.



segunda-feira, 17 de março de 2014

Violões







Violão, de longe ainda,
avisto o teu apelido de ponte.
Tuas cordas esticadas
na exatidão matemática,
mais parecem alças.
Dentro de cada parte
há um segredo que a madeira
esconde com arte.
Há esta sonoridade ambientada
que no fundo fez morada
e a tua voz aparece quando
vibra e ressoa
numa extensão,
como se fosse a voz
de uma pessoa
vibrando um coração.
Mesmo quando parado,
no canto encostado,
há esta canção silenciosa
adormecida em tuas cordas
à espera da aventura de ser extraída
da forma como se extrai a seiva
primordial da vida.

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Assim falou Zaratrusta




















Nem a História da Filosofia,
nem a Ciência, nem a Religião.
Eu só me situo no âmbito da Paixão.
Por isso, podem chamar os pássaros!
Que venha cada qual com o bico afiado
impingindo lacerações e felicidades
nas rapsódias em retalhos:
os pássaros de Marte, do gozo, da Arte,
feito vendilhões e biscates.
Os pássaros, que bem sabem a alma e seus tesouros,
os gases voláteis, os cães e as sombras em combustões.

Agora podem chamá-los.
Passei o dia inteiro dando pancadas na fumaça
e eis aqui o homem cansado.
Eis aqui o homem que precisa de outra jornada
em cujas águas revoltas e sem destino
não haja o singelo regato campesino.

Eis agora um homem perdido e que ama se perder.
Há nele um vazio de tabernáculo a arder.
Os arames estão desarmados e os escuros, emoldurados.

Podem chamar os pássaros.
Aqueles que trazem o cimo dos prédios
em forma de remédios.
Os que viajam em altíssima velocidade
para arrebatar montanhas dissolvidas.

Já retirei a vidraça dos olhos
para receber o assédio que vivifica.
Preparei meu cabedal de lama e o lençol
da cama para pousar imagens
de todos os pássaros que sejam espaçonaves.


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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Aos corações
















Peço aos quatro ventos
que engrossem o sentimento.
Os quatro ventos estão nos
quatro cantos do mundo
e assopram em vertical profundo.

Ao que estava esquecido e dissolvido,
peço que se torne concentração sólida.
Às esquinas retilíneas e brancas,
que se convertam em bordados e chagas.
Peço feridas bordejando pássaros nas
marcas que voam e doem e
nas picadas marcadas que doem e constroem.

Então é melhor aos corações que haja fogo
e que esse fogo desabroche a paixão de novo.
Ao coração duro como a pedra desejo a dissolução
pois que a lua é bela apesar da selva e a pedra
não deve ser obstáculo se já é parte do espetáculo.
Desejo ao coração patife espatifar-se em bife,
ao coração de mármore espichar-se em árvore.
Ao coração contábil,
desejo um incêndio inigualável.

Ao coração magoado e ressentido,
desejo muitos curativos.
Àquele que tirou férias prolongadas,
desejo urgências inesperadas.
Ao coração desiludido desejo
que não se acovarde diante do perigo.
Ao coração de rochedo, que se fechou ao medo,
que lhe sobressalte um raio perdido
partindo-lhe ao meio.
Ao coração estéril às flores por causa da dor
desejo um grande regador.
Ao coração desmobiliado
desejo um inquilino empossado.
Desejo, ao coração sombrio, um dia claro
e uma altura de dez pavimentos
para a qual o racional se desmanche de maneira
sobrenatural e o inevitável aconteça.
Pois, por incrível que pareça, o que antes era certo
pode se tornar inexplicável e o deserto irremediável
pode originar a multidão daquele que sente
apenas a falta da pessoa ausente.


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