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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Coração













Jardim secreto
é o lugar onde o verso
mora:

Espaço com cheiro sintético
e onde o poético
namora.

Jardim diverso
é o lugar onde o tempo
molda:

Lugar com cheiro de gente
e onde a semente
se solta.

Jardim deserto
é o lugar longe e perto:

espaço dentro do peito,
cenário de universo.



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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Aos corações
















Peço aos quatro ventos
que engrossem o sentimento.
Os quatro ventos estão nos
quatro cantos do mundo
e assopram em vertical profundo.

Ao que estava esquecido e dissolvido,
peço que se torne concentração sólida.
Às esquinas retilíneas e brancas,
que se convertam em bordados e chagas.
Peço feridas bordejando pássaros nas
marcas que voam e doem e
nas picadas marcadas que doem e constroem.

Então é melhor aos corações que haja fogo
e que esse fogo desabroche a paixão de novo.
Ao coração duro como a pedra desejo a dissolução
pois que a lua é bela apesar da selva e a pedra
não deve ser obstáculo se já é parte do espetáculo.
Desejo ao coração patife espatifar-se em bife,
ao coração de mármore espichar-se em árvore.
Ao coração contábil,
desejo um incêndio inigualável.

Ao coração magoado e ressentido,
desejo muitos curativos.
Àquele que tirou férias prolongadas,
desejo urgências inesperadas.
Ao coração desiludido desejo
que não se acovarde diante do perigo.
Ao coração de rochedo, que se fechou ao medo,
que lhe sobressalte um raio perdido
partindo-lhe ao meio.
Ao coração estéril às flores por causa da dor
desejo um grande regador.
Ao coração desmobiliado
desejo um inquilino empossado.
Desejo, ao coração sombrio, um dia claro
e uma altura de dez pavimentos
para a qual o racional se desmanche de maneira
sobrenatural e o inevitável aconteça.
Pois, por incrível que pareça, o que antes era certo
pode se tornar inexplicável e o deserto irremediável
pode originar a multidão daquele que sente
apenas a falta da pessoa ausente.


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Marinha


















Eu e o oceano somos irmãos.
Encontrei-o aos dezessete anos no Espírito Santo
e vazamos unidos rodovia acima,
caminho inverso da multidão.
Desde então, eu sigo incomportado de sal e rapsódias.

Quando sinto a língua crepitando seu fogo,
estendo bandeiras e velas e sangro como
quem quer redimir o mundo.
Neste ínfimo instante, eu e os heróis
da minha falange, aparecemos com rosas,
farpas, balas e curas nas mãos.

Mas nem sempre foi assim.
Era costume meu ver a vida da janela
até que um dia veio um vento flauteando
uma canção e eu dancei
como nunca dançara antes.
Aprendi a chover a cada nuvem desfeita.

Porque navegar é humanamente urgente,
preciso falar do amor para este
que me espera em meus sapatos.
Preciso cantar o mar que se infiltra
no coração das gentes.


Publicado no livro “Povoado”, 2006,
Editora Scortecci – São Paulo


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sábado, 20 de outubro de 2012

Sílaba

















No ímpeto de sondar
brumosas florestas
e cavernas debaixo de rios
forrados por pedras,
meu coração de ferro
gosta de inventar atalhos
e soletrar paixões
com aspecto de cactos.
Ao desembrulhar-se em cidadelas,
deixa às claras seus rumores e
retira dos bolsos as mãos
de esmoleiro para inventar
coisas com feições
de pássaros e morcegos.
Nas asas do pássaro,
raio a manhã obtusa
exibindo um poema
em minha blusa.
Nas barbatanas do morcego,
escondo o ângulo da noite exata
voejando armado
feito um guarda-chuva.




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