Peço aos quatro ventos
que engrossem o sentimento.
Os quatro ventos estão nos
quatro cantos do mundo
e assopram em vertical profundo.
Ao que estava esquecido e dissolvido,
peço que se torne concentração sólida.
Às esquinas retilíneas e brancas,
que se convertam em bordados e chagas.
Peço feridas bordejando pássaros nas
marcas que voam e doem e
nas picadas marcadas que doem e constroem.
Então é melhor aos corações que haja fogo
e que esse fogo desabroche a paixão de novo.
Ao coração duro como a pedra desejo a dissolução
pois que a lua é bela apesar da selva e a pedra
não deve ser obstáculo se já é parte do espetáculo.
Desejo ao coração patife espatifar-se em bife,
ao coração de mármore espichar-se em árvore.
Ao coração contábil,
desejo um incêndio inigualável.
Ao coração magoado e ressentido,
desejo muitos curativos.
Àquele que tirou férias prolongadas,
desejo urgências inesperadas.
Ao coração desiludido desejo
que não se acovarde diante do perigo.
Ao coração de rochedo, que se fechou ao medo,
que lhe sobressalte um raio perdido
partindo-lhe ao meio.
Ao coração estéril às flores por causa da dor
desejo um grande regador.
Ao coração desmobiliado
desejo um inquilino empossado.
Desejo, ao coração sombrio, um dia claro
e uma altura de dez pavimentos
para a qual o racional se desmanche de maneira
sobrenatural e o inevitável aconteça.
Pois, por incrível que pareça, o que antes era certo
pode se tornar inexplicável e o deserto irremediável
pode originar a multidão daquele que sente
apenas a falta da pessoa ausente.
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