quinta-feira, 13 de abril de 2017

Candonga















Candonga mexerica fica, fica,
fazendo narrativa todo dia
das coisas que acontecem mundo afora,
da nuvem que vagueia sobre a aldeia
no telejornalismo dito e escrito.

No corpo da notícia que importa
há sempre um interesse de cartola
e o dedo gerencia o que cita
e o que se silencia ou se esconde
aonde alguma fala não responde.

E assim a mexerica candongueira
engana com seu cheiro maquilado
do que se vê vazado na peneira
pra quem se acomoda confortável
em seu sofá de sala, escutando
o que a TV lhe conta sobre o dia
das coisas de Brasília e do Senado,
da fala teatral do deputado
que na ideologia se afirma
o grande herói da pátria flagelada,
mas povo não é égua, não é bobo,
e sente o cheiro falso da mentira
e faz da rua a casa em que habita
na força que desmente a mexerica.



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sábado, 18 de março de 2017

Há de haver














No planalto central,
urubus do legislativo
fazem voo furtivo inaugural.
Olham de cima a presa de rapina
e querem tudo o que se imagina.
Querem alma, querem ouro,
querem sangue, querem couro.
Mas há de haver alguém honesto.
Por isso, eu me manifesto.
Há de haver esperança no baralho
que defina algum trabalho
e que afaste esse ladrão
abusando de famílias e
de quem busca moradia
com uma fome do cão.

O destino das tripas e do intestino
de pedintes de barriga vazia
dança de mão em mão
e a fila que nunca viu Brasília
e nunca soube o seu azul
na  elegância da cidade,
só sabe da ganância do baú
da felicidade eleitoral
no paraíso do planalto central.


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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Revolução














Serralha espinhenta nascida
na calha da rua barulhenta,
aprende com as coisas miúdas
e pacifica teu espinho de brejaúva.
A verdadeira grandeza é invisível
e não ostenta os artefatos da ilusão.
Assim, faze silenciosa tua evolução
sem a incrível vestimenta das rosas
ou a falsa glória das ostentações.
Enquanto os carros passam, silencia
e observa o ciclo engolindo o dia.
Cada lição aprendida vale ouro
para guardares no escaninho.
Parecem inexplicáveis as injustiças,
mas é lógico o destino das plantas invisíveis,
por mais que fiques ferida
quando a multidão te pisoteia
na pressa terrível dos dias.
A tudo suporta quieta e paralela,
estudando sozinha o mundo.
Um dia saberás que valeu à pena
tua confiante e heroica novena
e terás então registrada em livro
uma experiência que te forjou árvore,
frondoso palácio de passarinhos.
Ainda assim não te avistará
quem cruza a rua em desalinho,
mas teu passado de mostarda continuará
recolhendo lições e aprendizados
para o infinito paraíso dos pássaros,
pois a invisibilidade na cidade
é a verdadeira cortina do espetáculo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O Capital














O micróbio do dinheiro 
na ferida do mendigo
ambiciona e faz medo 
no projeto em que o rico
quando deita se preocupa 
que se afaste o bandido,
que o desastre da falência 
fique longe do seu circo
de aparência e desfile, 
de holofotes e perigos,
de inveja  na revista 
que destila seu prestígio.
O dinheiro cria perna, 
salta longe feito grilo
no mercado da oferta, 
na procura em sigilo
mata fome, vira ponte, 
vira casa, edifício,
operário na labuta 
sempre sua no suplício,
sonha carro, sonha vida, 
sonha roupa, sonha filho
e o dinheiro sempre escapa, 
vai na asa de um trilho
vai pro banco, vira vento, 
roda o mundo no estribilho
sai do cofre, vai no bolso 
e num gesto de esforço
sai do rico e retorna 
bem na rua onde estende
e recebe sorridente
a mão pobre do mendigo.


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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Apenas um flerte













A brevidade se resume num giro
de um sopro num cisco.
As coisas giram seguindo a rotação
posto que é lei do sistema dançar sem sair do lugar.
E é uma dança lenta, sedutora,
que deixa cores, olhares, sorrisos,
sabores, lugares...
Depois tudo se adentra
no lugar sagrado a que chamamos memória e,
uma vez lá dentro,
fica guardado com o restante do universo
e não se congela,
não adormece em esquecimento.
Por tornar-se lembrança,
pode voltar à tona a qualquer momento
e assim, num flerte de prima-dona nos envolve
feito um golpe
numa viagem para dentro de nós.
Quando voltamos desta expedição,
somos mais velhos.
O espaço íntimo é infindo
porque a sua extensão é de infinito
e nos revela infinitos também.
Assim, um giro de um sopro num cisco,
um olhar, um sorriso
são tesouros do além,
mas não do além-futuro que degustaremos.
Essas coisas pertencem ao passado guardado,
história contada daquele primeiro dia
em que nos encontramos;
daquele primeiro olhar,
da primeira palavra dirigida e do sorriso.
Sejamos, pois, felizes!




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domingo, 6 de novembro de 2016

Bem-te-vi















Daqui de onde estou,
desejo-lhe joias trejolis,
corações de caquis.
Que venham rasqueando o céu
no ponteio de uma viola,
num som de vitrola
feito perdido avião
a bater em seu coração,
galho seco a florir,
para que se a ponha a rir
e a celebrar a vida plena
de forma serena
no leva-e-traz do amor
nunca extinto no jamais.

O amor é bem-te-vi
e jamais é palavra assaz,
pois nosso eterno vínculo
de alegria faz um círculo.
Quando volta,
é primavera de festa
e  o temido inverno
em seu frio agudo
torna-se vencido pelo amor astuto.
O seu fogo  aceso
faz arabescos de borboleta,
brilha o facho de um cometa,
canta alto ao luar
a quem se ponha a ouvir
e a acreditar em seu encanto
benfazejo de bem-te-vi
no guardado desejo de sorrir.


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sábado, 29 de outubro de 2016

A rua






















Eu sou um viajante do tempo
e neste momento nada me perturba.
A cada passo, carrego o patrimônio de eras.
mesmo que esquecidas, não saltem elas
do embornal da alma onde tecem vida.
Minhas preciosidades estão ali guardadas,
cada qual numa lição tirada.
Quando ando em direção ao intransponível,
respiro gás dirigível, agradeço à rua, e nada me perturba.
Atrás de toda dificuldade, uma lição me aguarda.
Espreita-me ansiosa e diz: Vem, aprendiz!
Vem andarilho! Vem saber com quantos
paus se faz a caravela que te leva!
Então agradeço por tudo:
Agradeço pelos rochedos,
pelos percalços, pela floresta de medos.
Agradeço pela fortuna mirrada
quando a forme se avizinhava.
Agradeço pelas misérias e insucessos
e por alguma pouca sorte que tenho.
Na roda do engenho de onde a lição é tirada
é que estão os tesouros e, sem que nos apercebamos,
em seu esacaninho guarda-se todo o ouro da jornada.


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