domingo, 29 de abril de 2018

No silêncio da prosa















No chão da língua
plantei um grão.
A terra seca desejava
a chuva aprisionada
ainda na vastidão.
E o grão pedia e imaginava
a sua árvore de frutos
onde o vento doce falava,
relembrando relíquias
de outros tempos difíceis
onde a esperança minguada
trancafiava-se na crise.

Mas as folhas sussurram,
mesmo na ausência de arvores
e comunicam lindas mensagens
que saciam securas
ao espalharem as tranças
da água vertiginosa
nas respostas faladas
no silêncio da prosa.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Parlenda



Lírio do brejo
vem limpar meu olho
vem me dar um sopro
para eu ver beleza

na cachoeira
que penteia as pedras
e murmura aquela
melodia e letra.

A Natureza
que circunda a gente
é aquela mesma
que avoluma a cesta

do alimento que faz
correnteza
ao cantar a vida
posta sobre a mesa.

E tudo dado
ao seu próprio gosto
não é por acaso
e não é atoa.

Coincidência
é o que foi tratado
bem lá no passado
na conversa boa.

E o esquecimento
é um véu delgado
não imaginado
quando a tristeza

faz a moradia,
habitando o átrio,
mas a tal beleza
é medicamento,

é um colírio
feito aquele lírio,
é um passarinho
feito um curativo.

no olho amargo
desesperançado
onde o milagre
se transforma em trigo.

E a alegria
vem dançar divina
nesse mundo vivo
de contentamento.

Simplicidade
não é só vontade.
É o exercício
de um olhar sereno

buscando a essência
nas pequenas coisas
não observadas
em sua aparência.

Vamos cantando
Vamos avançando
e vamos vencendo
numa volta e meia!

Salve o orvalho
numa flor miúda.
Salve toda lua
que se faz brejeira.

Que o ordinário
em seu relicário
no seu benfazejo
velho realejo.

Se desabroche
a quem quer que seja
e logo se aloje
nas almas faceiras. 



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A mão que estende













As bananeiras na beira da estrada
oferecem cachos de banana maçã,
marmelo, ouro e prata
que poderão pertencer a quem passa
tendo à mão um facão ou faca.

Aquele que lavrou a terra,
utilizando a enxada
da mesma forma que a caneta
lavra a palavra
será de todo esquecido
e o seu cultivo não será lembrado
quando o cacho de bananas for subtraído.

O mandiocal evoluído
onde não há cerca
nem limite que se queira,
poderá ser invadido
por qualquer indivíduo
que assim deseja
e o labor do sujeito oculto
que na lavoura é um vulto
será detalhe desconsiderado
na avidez vantajosa do furto.

E assim, a atitude do ladrão
em pequenas coisas
ajuda a formar a moral doida
cujos valores éticos,
na chaga profunda,
não encontra antisséptico.




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domingo, 24 de dezembro de 2017

Feitiço















Surgindo ao luar a máquina estelar
inexata e ampla produz diamantes
em qualquer lugar.
O palácio plácido azulado
abre-se tal qual vestido
e acaricia os brilhantes olhos
que avistam a multidão cá embaixo
carente de fé e afeto.
O vento soprado do Norte
polvilha a Terra e infla os corações
de uma esperança esquisita.
Depois deposita em cada mão uma flor cálida
e na viração da tarde os pássaros cantam
de um modo diferente e se aninham
no silêncio das almas.
Os pés, a esmo, despertam-se
na sinuosidade de um estrondo irreprimível
e se movem em trilha de uma reta
sem perder a vocação que delira.
A vontade relincha e acredita com vigor
que o porvir se aproxima a passos vagarosos
e realmente decididos.
Então todos, enfim, sentem no peito
a certeza que um Novo Ano se aproxima.

sábado, 23 de setembro de 2017

Benzedeira













dois galhos de arruda
no copo molhados
espargem as gotas
que curam olhados.
espada de Jorge,
avenca de cheiro,
vassoura de planta
no chão do terreiro
e reza a velha
na voz que resmunga,
benzendo o menino
com dores nas juntas.

domingo, 9 de julho de 2017

Aristóteles














Aristóteles dizia
lá na sua Grécia Antiga
que servir toda cidade
é uma filosofia
em que verdadeira música
é o canto da república
com a democracia
se exercendo em primazia.
Mas hoje tão somente
o que se vê infelizmente
é a Arte da Política,
corrompida e sifilítica,
no discurso de interesse
de quem pede em falsete
um bilhão de confiança
na eleição de sua conta.
E na lama chafurdada,
a moral abandonada
serve a taça sedutora
que corrompe a pessoa
e seduz um parasita
que assume a mania
pelo voto todo dia,
e caça presas distraídas.

Tapa no pernilongo
que se faz tão soberano
com sua flecha de vampiro
e seu som de violino.
Bomba de inseticida
em sanguessuga e fantasia
na promessa e na mentira
que entorpece a rebeldia.

Abram-se as gavetas
dos barões e das duquesas
e o ouro lá guardado
seja ao povo destinado
na saúde e moradia,
na educação urgente,
no respeito ao indigente,
na Justiça que nos guia.


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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Grito















O abuso da força é fraqueza
O abuso do belo é a feiura
O abuso do rico é a pobreza
O abuso do lodo é loucura
O abuso da empáfia é a derrota
O abuso da água é asa branca
O abuso da lei é a revolta
O abuso da voz fere a garganta

O abuso do samba perde o passo
O abuso do saco é o vazio
O abuso do frio é o descampado
O abuso do lago é o estio
O abuso da posse é a miséria
O abuso da cerca é o limite
O abuso do quente é a Sibéria
O abuso do orgulho é o humilde

O abuso da falha é um sismo
O abuso da mágoa é o veneno
O abuso da joia é o granito
O abuso da forma é o escaleno
O abuso da páscoa é o Egito
O abuso da estrela é um nada
O abuso da raiva é um cisto
O abuso da safra é vaca magra

O abuso da santa é hipocrisia
O abuso do som é a surdez
O abuso do ego é antipatia
O abuso da capa é a nudez
O abuso da seca é tempestade
O abuso da chave é o rochedo
O abuso do todo é a metade
O abuso do crime é o degredo

O abuso da fase é sobrecarga
O abuso do guia é a escuridão
O abuso do doce é sem a casca
O abuso do raio é o trovão
O abuso do brilho é o escondido
O abuso da posse é sem a mão
O abuso da bolha é estar no chão
O abuso do pão é sem o trigo
  
O abuso da onda é a secura
O abuso da copa é a raiz
O abuso da mesa é a penúria
O abuso do cheiro é sem nariz
O abuso da crença é a ausência
O abuso do aço é o quebradiço
O abuso da fé é a inclemência
O abuso da calma é um grito.


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