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domingo, 8 de dezembro de 2019

Intangível porto
















A cada momento 
descartamos a carne,
essa temporária imagem,
e o momento se vai,
mesmo que sutilmente,
dissolvido na bruma ambiente da memória
que hora se alegra, 
mas, também, chora
para seguir a um lugar distante,
intangível porto que se põe avante
onde haverá sempre outro mar,
esse estanque repouso de vivências
guardadas no embornal dos errantes.
O que se foi guardado fica,
tesouro que na alma habita
disponível a visitas.
Viagem em linha reta,
às vezes oblíqua,
vamos todos carregando canções,
todas gravadas em corações
com tudo o que tivemos e temos.
O passado nunca fica ausente
apesar de novas miragens
que se abrem à frente.
A graça de viver recolhe, coleciona, 
acaricia carinhosamente
as joias que tal e qual
um sopro imortal
moram dentro da gente..




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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Apenas um flerte













A brevidade se resume num giro
de um sopro num cisco.
As coisas giram seguindo a rotação
posto que é lei do sistema dançar sem sair do lugar.
E é uma dança lenta, sedutora,
que deixa cores, olhares, sorrisos,
sabores, lugares...
Depois tudo se adentra
no lugar sagrado a que chamamos memória e,
uma vez lá dentro,
fica guardado com o restante do universo
e não se congela,
não adormece em esquecimento.
Por tornar-se lembrança,
pode voltar à tona a qualquer momento
e assim, num flerte de prima-dona nos envolve
feito um golpe
numa viagem para dentro de nós.
Quando voltamos desta expedição,
somos mais velhos.
O espaço íntimo é infindo
porque a sua extensão é de infinito
e nos revela infinitos também.
Assim, um giro de um sopro num cisco,
um olhar, um sorriso
são tesouros do além,
mas não do além-futuro que degustaremos.
Essas coisas pertencem ao passado guardado,
história contada daquele primeiro dia
em que nos encontramos;
daquele primeiro olhar,
da primeira palavra dirigida e do sorriso.
Sejamos, pois, felizes!




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sábado, 29 de outubro de 2016

A rua






















Eu sou um viajante do tempo
e neste momento nada me perturba.
A cada passo, carrego o patrimônio de eras.
mesmo que esquecidas, não saltem elas
do embornal da alma onde tecem vida.
Minhas preciosidades estão ali guardadas,
cada qual numa lição tirada.
Quando ando em direção ao intransponível,
respiro gás dirigível, agradeço à rua, e nada me perturba.
Atrás de toda dificuldade, uma lição me aguarda.
Espreita-me ansiosa e diz: Vem, aprendiz!
Vem andarilho! Vem saber com quantos
paus se faz a caravela que te leva!
Então agradeço por tudo:
Agradeço pelos rochedos,
pelos percalços, pela floresta de medos.
Agradeço pela fortuna mirrada
quando a forme se avizinhava.
Agradeço pelas misérias e insucessos
e por alguma pouca sorte que tenho.
Na roda do engenho de onde a lição é tirada
é que estão os tesouros e, sem que nos apercebamos,
em seu esacaninho guarda-se todo o ouro da jornada.


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quarta-feira, 4 de junho de 2014

A Obra
















Na altura insalubre,
põe-se risonha a gravidade,
chamando o pedreiro que se equilibra no cinza da manhã.
Ele põe água na mistura e assobia feliz na libra do dia.
A claridade maciça envolve o andaime
e o pedreiro enche de massa o vão do tijolo,
afina com água o reboco
antes que alguém lhe chame.
Dentro de muito pouco
nada mais haverá nesta história,
que existe sozinha no vão
junto aos passarinhos
numa longa distância do chão.
Dentro de muito pouco esta história será o sopro
naquele inacabado reboco.
Dormirá na mesma tumba onde dormem as glórias,
onde descansam os césares,
onde pulsam todas as vitórias e promessas
que um dia fizeram parte de um vento que assopra.
O pedreiro não sabe disso.
Só se interessa pela obra
porque a obra é seu ofício.
Não sabe que o segredo dos reis
e dos vassalos é o mesmo na noite silenciosa.



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