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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Estética















Quem me ensinou foi tu, uirapuru,
que a beleza tem muitas formas de ser.
Quando cantas na mata, os passarinhos
fazem silêncio para ouvir-te fazer
música, bela música que encanta
por onde vai e aonde alcança.
Na aparência tua és bem discreto
quando a tudo misturas secreto.
Deve a Natureza dizer-nos
que a simetria festejada,
que o pavão em cores avivadas,
para declarar totalmente o belo não bastam.
Canta, uirapuru, pelos cantos do mundo,
pelo poço mais fundo
que os cordões dos padrões desatam.
Canta, ano após ano,
para que aprendamos o que se esconde
em mistério na vistoria do nosso olhar
quando te revelas assim soberano
em teu simplérrimo império
nos ensinando na alegria do teu cantar.


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Parlenda



Lírio do brejo
vem limpar meu olho
vem me dar um sopro
para eu ver beleza

na cachoeira
que penteia as pedras
e murmura aquela
melodia e letra.

A Natureza
que circunda a gente
é aquela mesma
que avoluma a cesta

do alimento que faz
correnteza
ao cantar a vida
posta sobre a mesa.

E tudo dado
ao seu próprio gosto
não é por acaso
e não é atoa.

Coincidência
é o que foi tratado
bem lá no passado
na conversa boa.

E o esquecimento
é um véu delgado
não imaginado
quando a tristeza

faz a moradia,
habitando o átrio,
mas a tal beleza
é medicamento,

é um colírio
feito aquele lírio,
é um passarinho
feito um curativo.

no olho amargo
desesperançado
onde o milagre
se transforma em trigo.

E a alegria
vem dançar divina
nesse mundo vivo
de contentamento.

Simplicidade
não é só vontade.
É o exercício
de um olhar sereno

buscando a essência
nas pequenas coisas
não observadas
em sua aparência.

Vamos cantando
Vamos avançando
e vamos vencendo
numa volta e meia!

Salve o orvalho
numa flor miúda.
Salve toda lua
que se faz brejeira.

Que o ordinário
em seu relicário
no seu benfazejo
velho realejo.

Se desabroche
a quem quer que seja
e logo se aloje
nas almas faceiras. 



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sábado, 17 de maio de 2014

Ouvidos














Para ouvir o sopro antilírico
que faz morada de sanhaço
no beiral das casas,
precisarei de maior
exuberância nos ouvidos.
Precisarei não ouvir o vento
no bambuzal do quintal,
onde há uma cotovia
que tem cor de bandeirola,
e arrumarei novas palavras num cesto
junto a outros perigos.
Farei orelha de bananeira
para o sussurro dos arrepios
e acumularei experiência
na altura de uma carnaúba adulta
ao escutar os dragões que
recolhem nas nuvens de hulha
as fagulhas para serem atiradas
nas choupanas das resistências humanas.
Precisarei da tesoura, gilete
e crucifixo porque meu ouvido
só ousa escutar o que é bonito
e rejeita o lixo e o fel dos precipícios.

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domingo, 30 de março de 2014

Natureza





 O verde esmeralda em mosca varejeira
E o ninho de sanhaço em torre de igreja
A pétala de cravo e a perna do soneto
O véu de grinalda e o fio de cabelo
O fruto alaranjado e as unhas da tigresa
E é tudo tão bonito no vão da Natureza!

A moça regateira com o salto de modelo
A banha do cachaço na boca do morcego
O favo de uma jaca e o jeca sem tristeza
O Salmo recitado a toque de pandeiro
O lenço do silencio e um dedo de proeza
E as mãos do Obreiro da Natureza!

A folha de vassoura no cheiro no terreiro
O óleo numa água e as cores do calango
O nó do bacalhau nas cordas do balanço
A nuvem de noivado no bolo sobre a mesa
A linda serenata à luz de lua cheia
E é tão sorridente a Natureza!

A manga temporona e o voo do besouro
A embira da banana e um céu que é todo fogo
A peso de alumínio, o salto de um símio
E o amor no seu invento é massa de cimento
No pulo salva vida é Deus numa visita
E tudo é tão sagrado na Natureza!



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domingo, 5 de janeiro de 2014

Amor Medieval




















Plantada na estrada do amor,
a beleza é larga ponte
onde se revela o horizonte.
Nela existe o mesmo cheiro
dos tecidos novos porque inova na cor
posto que a cor é paisagem inexplorada
nas mãos, nos olhos, na boca da pessoa amada.

Na fugacidade das flores e insetos,
o amor estabelece uma agrimensura
e escreve versos que mais parecem
compridas ruas onde se passeia de mãos dadas.
E a manhã balbuciante,
marcada pela estrela d’alva,
não será mais que uma alvorada
e sim um infinito momento de duração enamorada.

Entretanto, se o fogo luminoso solar
e os peixes do fundo das águas pontuam
o meio termo entre o céu e a terra,
neste meio termo estão também as verdades de amar.
Pois por mais que o amor e a beleza
estejam juntos nos momentos de plumagem eterna
eles estão, na verdade,
ligados a outras formas ainda mais belas
que moram irredutíveis no espaço das ideias.
E por lá olhando, naquele brilho firme,
por vezes avistamos o verdadeiro amor
e suspiramos a forma que o define.
É um amor em quietude que nos olha o tempo todo
e estendendo lençóis na janela,
bafeja-nos com seu fogo.
Um fogo a arder em sala sagrada
e a dizer-nos numa chama nunca findada
a sua forma verdadeiramente bela.

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