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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Lista de Chamada






















Sim, amigo! O nome colhido na árvore do ouvido é o teu!
Nome maiusculamente teu e de mais ninguém,
chamado a lambuzar-se de ofensas
e a despertar-te a fúria insana.
Neste instante, guarda os fogos.
Esquece de ti na surdez oportuna
e recebe o carinho gélido de um espanador!
Se o espanador espaneja com a asa de um anjo,
o alívio escorre vívido em seu domínio
e no lugar do que antes era invencível
instala-se silencioso sítio.
Na ausência da forma palaciana de ti,
acalmam-se as palavras turbulentas,
os recitais de tormentas,
os espetáculos tumultuosos que desafiam-te,
provocando e clamando os tais corajosos.
O espanador tudo apascenta.
Dissolve a armadura do ciúme,
esfrangalha a vaidade e as primas do egoísmo.
A tudo transforma em branco ausente
num tipo de desinteresse que põe nas distâncias
o olhar competidor e rigoroso da intransigência,
que não aceita a vida aformosada de clemências.


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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Vestido Branco














Na educação dos afetos, 
canta a voz do sereno
a melodia em libra 
porque é tamanha
a harmonia que a ela 
nada escapa
ou se desperdiça.

Sua voz enigmática 
acalma as borrascas
e no solo seco florescem carinhos.

Onde insistiam-se os desacordos,
desmancha-se o ponto lodoso,
e as contrariedades ficam sorrindo.

Apagou-se de vez o fogo intermitente
fadado a durar inclemente.
A ofensa, que nasceu para durar um século,
não causa mais dor ou dano de espécie alguma.
Chegou o perdão com um sopro de abano,
trazendo a paz que a tudo cura.
Na troca da paixão por compaixão,
transforma-se todo o efeito da música.


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sábado, 29 de agosto de 2015

Nobreza

















A humildade digna
é amiga
fidelíssima
da renúncia.
Ao perder, ganha,
acumula e apanha
a pesada cruz
usando um capuz.
Guarda dentro de si
a tormenta de um frenesi,
mas a confiança
robusta,
faz de sua
justa renúncia
um tempo de paz
íntimo em espaço
humílimo
de volúpia.



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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Flor de Lótus















O mundo dos lobisomens
é feito insistentemente do recomeço
porque o fim do mundo mesmo,
não é onde Judas perdeu as botas.
Não está no final de uma rota
nem é o óbito catastrófico
do vestígio de um vento radioativo  
ou terremoto a varrer os portos
com ondas imensas de um milhão de mortos.
O fim do mundo é o insistente tropeço
cada vez que desaparece o homem
e toma o seu lugar o lobo vesgo.

Ao se destampar a boca-de-lobo
para jorrar a água dos esgotos,
há de se ter uma pequena arca projetada
que carregue a humanidade preservada
para conter o impulso de um dilúvio súbito
que arraste a joia suscetível da calma.
No curso das tolerâncias, a flor do lodo
é a esperança apaziguadora dos mino-touros.
É a lúcida mansidão diante de um soco.
É a resposta última à febre insana
de não se lutar em vão diante de uma
atitude tirana que faça declinar,
por um segundo que seja, a casa da nobreza
onde mora o tesouro do coração.





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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Desenho Mágico













Se ficasse encharcada
com restos reluzentes de silêncio
e,  em seu elevado mosteiro, estagnada,
a paz ficaria entregue à sentença 
de sua comodidade e, 
longe do que lhe é costumeiro,
gozaria de si mesmo acomodada numa
constante estabilidade enclausurada.
Mas não. Muito longe disso tudo,
é na aventura e no risco de ser aniquilada
a qualquer momento que robustece o seu vulto.
É na inspiração de um instante, querendo salvar-se
nas águas revoltas à mercê das forças,
que se faz presente e, apesar do tumulto
e dos insultos, responde continuamente calada.
Quanto mais é provocada e testada, eleva-se.
Na pressa raivosa dos impacientes,
escolhe-se branda e, lenta e serena,
permanece inatingível e quieta.
Espalha-se numa reta, mesmo que desapercebida,
em minúsculas gotas dissolvidas
para insinuar-se num lapso de vida.
Nos casos de contendas, esforça-se
em acalmar a turba escalena
por um segundo que seja.
Deseja no mundo cumprir o destino
de andar por entre os homens em desatino
e difundir a substância vagarosa do firmamento
onde as estrelas e seu alumbramento
unem constelações em desenhos
que revelam um castelo mágico.
É destes altos estágios e não na Terra,
onde atua no exercício diário do limite precário,
que entoa uma canção que, 
de vez em quando, cá embaixo,
fechamos os olhos e a ouvimos.




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