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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Flor de Lótus















O mundo dos lobisomens
é feito insistentemente do recomeço
porque o fim do mundo mesmo,
não é onde Judas perdeu as botas.
Não está no final de uma rota
nem é o óbito catastrófico
do vestígio de um vento radioativo  
ou terremoto a varrer os portos
com ondas imensas de um milhão de mortos.
O fim do mundo é o insistente tropeço
cada vez que desaparece o homem
e toma o seu lugar o lobo vesgo.

Ao se destampar a boca-de-lobo
para jorrar a água dos esgotos,
há de se ter uma pequena arca projetada
que carregue a humanidade preservada
para conter o impulso de um dilúvio súbito
que arraste a joia suscetível da calma.
No curso das tolerâncias, a flor do lodo
é a esperança apaziguadora dos mino-touros.
É a lúcida mansidão diante de um soco.
É a resposta última à febre insana
de não se lutar em vão diante de uma
atitude tirana que faça declinar,
por um segundo que seja, a casa da nobreza
onde mora o tesouro do coração.





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terça-feira, 27 de maio de 2014

Ternura



















Se aquele eterno feito de ternuras
e respostas num fluxo intenso e inalterado
é um mar preguiçoso que se movimenta sem pressa de chegar,
haveremos de confiar na eternidade branda rompendo
muralhas esplêndidas, deixando um rastro de espantos
acumulados nas lutas ferrenhas.
No embornal, cada espanto sabe que a sua escolaridade
é uma dádiva digna de confiança e assim confia na divindade.
Por sua vez a divindade, que tudo sabe,
preserva a memória dos finais perdidos,
dos nossos entes queridos, 
escondidos feito pontas de obeliscos.

Em algum nevoeiro denso e sombrio, 
circundado por algo incompreensível,
a sabedoria, que sempre evita desperdícios, 
guarda respostas antigas
e deixa que cada multidão siga algum destino numa pequena ilha
porque o sol suave, sem o mínimo de intervalo, sempre brilha.
Qual bálsamo bendito entorna-se em ruas desconhecidas
e as pedras dos percalços, 
que há muito conhecem os mormaços,
deixam-se  assim ainda mais quietas cada qual,
na zelosa tarefa de existir 
acima de vigílias ou expectativas e de serem
roladas ao cabo dos dias naquela suavidade prenha de poesia.





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