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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Presença













Mas qual é o mérito
de um cemitério
se lá depositam-se
as casquinhas de um pretérito?
Se lá se desgastam
antigas roupas velhas
que já não servem?
Se no adro dos espaços
andam em meio a flores
e sabiás canoras
aqueles que acreditam-se
que foram embora?
O que dorme em minério
é um rio seco,
um galho vesgo,
uma pedra a esmo.
O ouvido do espírito, não,
está no vento pleno,
pulsante e vivo
e, mesmo que invisivelmente
pareça ausente,
pode, muitas vezes 
com o coração,
ser sentido.


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Selfie



















Na teia da aldeia de McLuhan,
tarde em Zimbabwe, 
manhã em Roterdã.
Na velocidade têxtil 
e hábil de um alfarrábio,
um constante rolimã 
na página estendida
com a notícia do dia, 
mas ela não está nem aí.
Está sozinha nos afazeres de rotina.
No que abre e fecha 
a flecha de um satélite na retina,
fotografa o flagrante 
no instante dela na piscina.
Sonâmbula e esquecida, 
ela não vê a tarântula em sua vida
e deixa o tempo correr 
porque o tempo não vaticina.

A guerra do Iraque 
foi um baile, e o neon
no cheiro da Grande Maçã 
não é doce ilusão em braile,
porque a rainha não se sente cega 
e analfabeta na escuridão.
Depositou-se envolta 
numa polpa de caqui
e a dificuldade alheia
não lhe interessa na pressa
em se exibir.
A sensualidade é a sua única verdade 
no concurso de uma beleza de areia
que desabrocha feito rosa
na beira da praia em maré-cheia.


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Trânsito












Com uma lanterna,
eu ilumino o espaço onde não haja
litígios fronteiriços nem espinhos,
porque a alma a tudo sonda
no vai-e-vem de uma onda.
Embrulho-me em papel-presente
e deslizo em palácios de vento
e colchões de ar quente
para salvar tudo no sumidouro
revoluto de um segundo.
Contra a inocência,
o resto de noite assombrada
nada pode ou dilacera
se, com a multidão apinhada,
eu também sonho e me engano
na avenida alumbrada
da manhã de madrepérola.


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O artista
















A seu modo, o artista malabarista na corda bamba,
faz da vida seu rumo enquanto anda.
O seu voto é uma espécie
de sacerdócio no palco do mundo.
Às vezes ele vaga anônimo e,
num aparente ócio, enquanto espanta,
taxam-lhe de vagabundo.
Na casa da arte, o seu pseudônimo
é uma identidade e o percurso indefinido
em trilha aleatória, por tantas tentativas distantes,
enche-lhe a vasilha vazia de sopa
com a multidão incontável de instantes e pessoas.

Há quem diga que os grandes artistas
deveriam ser preservados e eternos,
mas, para o bem de todas expectativas,
ao serem efêmeras e rápidas as suas visitas,
fica esse rastro luminoso de cismas
no caminho do êxodo de um povo,
que necessita de luminosidade e fogo
no deserto para alcançar a terra prometida.

A herança de todo Prometeu engorda
o saldo da conta, mesmo quando não se obtém fama
e, de repente, a Arte é um estado de espírito
que, por mais que pareça esquisito, dá-se.




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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Moto perpétuo

















Quando uma velha cadeira de balanço medita,
nela, uma alegria estranha se pontifica
porque o destino é na forma dos intestinos.
Sob as pequenas ruínas imperceptíveis do passado
desliza, então, no rumo mais adequado de compreender
algum antigo significado.

Enquanto visita as velhas rivalidades
e as mesquitas das animosidades,
examina a história aguda de infindáveis luas
no vai-e-vem das marés absolutas.
Compreende que tudo é vão na altura do chão
e tudo se torna pequeno diante do sereno.
A cadeira velha adormece, então,
em algum sono de mansidão,
sabendo que as franjas do tempo solene são,
na verdade,  dentes que digerem 
a dureza dos momentos infinitamente.
Úmida, ela balança-se e coleciona-se rediviva
no fundo das retinas,
acumulando vivência
em cada marca de ruína
no eterno aprendizado de leveza
que compõe a vida.




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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Canoeiro
















Ô, meu canoeiro!
Se no vínculo das águas no remanso das pedras rasas
as águas ainda relincham suas éguas na jaula
como se chovessem palmas,
acalma teu coração!
O teu passatempo favorito de olhar a lagoa
com olhos de quem anda à toa
perde o sentido porque possuis um rio.
Viaja então nele, canoeiro!
Dissolve o passado morto,
transformando as rotas nervosas em coisas ociosas.
O tecido do ócio é feito do linho do esquecimento
e, por isso, sempre traz contentamento.

Ao saíres da casa cedo, canoeiro,
deixa que a manhã te reserve algum segredo
e que a surpresa da romã desperte aos poucos
algum ouvido mouco para o colorido devido.

Leva a tua canoa e a tua casa sem medo
por entre as pessoas porque o rio é imenso,
na dimensão do próprio tempo.
Compartilha com elas todas as tuas coisas boas,
porque tua canoa é um presente de navegar nas enchentes
da multidão de gentes que caminha sonâmbula.

Apesar da neblina esparsa,
nunca esqueças em tua gôndola
as borboletas acrobatas
e as garças que enfeitam a vida.

Distribui as belezas do teu coração
no sonho de unir ombro a ombro
e encurtar todas as ilhas
porque teu título de canoeiro é o mesmo de
cada ser vivente que conduz uma canoa.

Assim, o teu dia se tornará modelável em pedra-sabão
no canto açulado de um azulão
e com a alegre algazarra das maritacas
vinda da mata cerrada e isso,
com certeza, contagiará outras almas.




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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Luminária





















Na luminária da sala está desenhada a ave
parada em sua plenitude libertária.
As correntes estáticas aprisionam
a sua lucidez espantosa na Arte
e as nuvens cremosas deixavam-se trespassar
por um golpe de luz feito mártir.

A fome dos micróbios pelas aves estagnadas
não se faz de rogada naquele céu precário,
de cenário e poente enfeitado,
onde não se pode voar com os pés descalços.

Ali, com muito custo,
pousa-se e canta-se baixinho nos galhos,
o caco da vida se robustece a custa de pesados fardos,
e a gentileza extraordinária convida outros pássaros
com sua voz de máquina para muitos entusiasmos.

Em nossa vida ordinária há também uma guerra
a ser vencida no leito de palha:
uma guerra que fará viúvas as nossas astúcias
de um céu que manda aves e fogo-fátuo que desmaia.

Na unção dos que vão estão registradas as semanas espigadas.
Está essa miséria acesa em carvão de pedra
e a vontade pungente de realizar muitas quimeras.
Está o sol caindo em cheio na cerca de arame
na expectativa indigente de alguém que ame.
Estão as asas paradas dos pássaros numa alegria estranha
e a plataforma quente numa tarde breve em chá de pitanga.



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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Eu juro





















Pela febre do ouro, pela claridade da prata
e das pedras preciosas, eu juro que não estou cego
e que essa coisa chamada felicidade
deve ser maior do que qualquer império.
Deve estar além do sonho de qualquer riqueza.
Deve estar além do ouro faiscado no regato raso,
além do azul-marinho precioso que se esconde nos brejos,
dos diamantes encantados nos rios velhos,
de quem se vendeu pelo ouro e pelo sacrilégio.
Porque o ouro, meu amigo, realiza muitos sonhos.
O ouro traz prestígio e tapetes vermelhos.
O ouro traz o gozo dos bens como tesouro
e constrói o sucesso de um enredo.
Mas o ouro não preenche o vazio profundo
em que antídoto único é não ter e ser éter.
Ter acumulado o impalpável feito de brilho,
de fumaça e vento de estrela vésper.
Alimentar-se de comida e de puro sentimento
e colher a miragem que de longe chama
com a voz da sonoridade dos manjares
convidando-nos a conhecer alguns lugares.
Não é possível ignorar o metal e sua capacidade de sustento
mas é preciso examinar o tanto que isso se torna veneno.
O balão precisa subir e os pesos precisam ser eliminados.
É preciso menos de luxúria enganosa
e mais do pássaro leve que, em seu casebre,
canta feliz na manhã esplendorosa.


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