quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Aos corações
















Peço aos quatro ventos
que engrossem o sentimento.
Os quatro ventos estão nos
quatro cantos do mundo
e assopram em vertical profundo.

Ao que estava esquecido e dissolvido,
peço que se torne concentração sólida.
Às esquinas retilíneas e brancas,
que se convertam em bordados e chagas.
Peço feridas bordejando pássaros nas
marcas que voam e doem e
nas picadas marcadas que doem e constroem.

Então é melhor aos corações que haja fogo
e que esse fogo desabroche a paixão de novo.
Ao coração duro como a pedra desejo a dissolução
pois que a lua é bela apesar da selva e a pedra
não deve ser obstáculo se já é parte do espetáculo.
Desejo ao coração patife espatifar-se em bife,
ao coração de mármore espichar-se em árvore.
Ao coração contábil,
desejo um incêndio inigualável.

Ao coração magoado e ressentido,
desejo muitos curativos.
Àquele que tirou férias prolongadas,
desejo urgências inesperadas.
Ao coração desiludido desejo
que não se acovarde diante do perigo.
Ao coração de rochedo, que se fechou ao medo,
que lhe sobressalte um raio perdido
partindo-lhe ao meio.
Ao coração estéril às flores por causa da dor
desejo um grande regador.
Ao coração desmobiliado
desejo um inquilino empossado.
Desejo, ao coração sombrio, um dia claro
e uma altura de dez pavimentos
para a qual o racional se desmanche de maneira
sobrenatural e o inevitável aconteça.
Pois, por incrível que pareça, o que antes era certo
pode se tornar inexplicável e o deserto irremediável
pode originar a multidão daquele que sente
apenas a falta da pessoa ausente.


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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Oração ao quebra-queixo














Salva-me,
Oh, tabuleiro de quebra-queixo!
Como a bexiga se salva no mictório,
Como a bicicleta se salva na roda
Como o glóbulo se salva na esfera
Como eu me espero
E me salvo nesta espera.

Mas eu sei o caminho,
Eu sempre soube
A paisagem do caminho decorado.
O rio entrecortando de espelhos os bairros
Salvava-se na prata de seu maço em sol,
O açúcar da cana:
Na garapa de seu colmo,
O velho dos balaios: nos bambus macios,
O coqueiro das casas:
No domingo de ramos,
As chuvas da montanha:
Nas cores do arco-íris,
A bola de couro:
No jogo dos vizinhos,
A sede da escola:
No picolé de abacate,
O gosto de batom:
No primeiro beijo.
E a felicidade
Era tão grande por tão
Poucas razões
Que ela andava de ônibus
Cismando o tempo todo
Na paisagem da Rio-Bahia.

Depois vieram outras felicidades,
Tantas foram que se dividiram
Sinalizando várias ruas:
Um rio se arvorando pelo vale.

Hoje tenho muitos números
Mas meu nome de batismo
É José Bispo Ferreira Filho,
Descoberto em 22 de abril,
Uma quarta-feira estrelada de 1964,
E preciso ser salvo

Da ausência de janela,
Do perigo turvo,
Do asfalto liso,
Do sopro mudo,
Da ausência de mato,
Da pedra-escudo,
Do olhar em cisco,
Do sangue-suco,
Da ausência de Vera,
Do roxo em luto,
Do obtuso vidro,
Do amor escuro.
Porque vos digo a minha estória,
Meus amigos e inimigos,
E não escondo o que sinto
E, às vezes, me sinto
Soldado sem solda
Num barco sem âncora,
Relevo plasmado
De espanto e Gôngora,
Ponte sem grampo,
Graveto de escombro,
Xarope sem santo,
Noite de assombro,
Guerreiro inerme,
Isqueiro sem chama,
Lago profundo
Com fundo de lama.

Valei-me, tabuleiros de moleques,
Porque minha a força reside em inventar
O mundo com sabor de quebra-queixo
Que não quebra o queixo,
Que não quebra o dente,
Que não quebra a alma,
Que surte semente,
Que encoraja o homem,
Que move o seu barco,
No mar ou no rio sempre para frente.


Publicado no livro “Povoado”, 2006,
Editora Scortecci – São Paulo


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sábado, 5 de janeiro de 2013

Maquiavélico


















Ser distante a ofensas
numa paisagem
de azul amolecido.
Guardar desaforos
numa caixinha de fósforos e,
sem decoro, tornar-se
grão de trigo.
Entorpecer o tigre 
ferocíssimo e,
em silêncio, 
vigiar o vão onde
cabem rugidos
mas, acima de tudo,
não enfartar-se de raiva,
não entornar-se de mágoa,
não alvejar-se de tiros.
Eis o fino trato
para o cordial inimigo.


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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Pedra da Lua

















Lua, mulher, menina,
Com teu clarão me ensinas
Um rumo na noite
Um prumo sereno
Por onde vão meus passos
Sempre descalços
Nem sempre cansados
Nem sempre terrenos
Extraindo amor das pedras,
Abrindo em dias os medos,
Oh, lua dos meus segredos,
Derrama clarão em mim!

Tua luz é alimento,
É trilha dentro do tempo,
É música no coração.

E um coração encantado
Pode encantar o mundo,
Pode descer no fundo
Sem se apagar.

O coração de quem canta
É mais que uma garganta,
É luz da lua santa,
É estrela que abraça o mar.

Lua, mulher bendita,
Clareia a minha vida
Para que outros escuros
Eu possa iluminar.


* musicado pelo compositor Elizeu Gabriel


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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Templário



















Foi-se aquele tempo em Constantinopla
Precipitando na fogueira minha Cruzada ambiciosa
E foi-se, naturalmente, cada relíquia que se dizia única.
Salvaguardado de todas as riquezas
Restou-me somente esta túnica
E é nela que em palavras me calo,
Vez em quando, e outras vezes canto
Tão franciscanamente que ninguém me escuta.


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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Árvores e Telhados






















No luar em círculo - a inscrição das águas do rio.
Do rio à nuvem - a natureza em seu estilo.
Mas, fitá-la em seu esplendor e de modo discreto
requer a remoção do azinhavre dos mistérios.

Pois quem espia a fechadura busca 
a imagem além da curva.
Busca um cortejo de palavras ocultas
porque palavras, ainda que palavras,
não dizem muita coisa
quando apagadas nuvens escondem o luar atrás da moita,
quando a aurora radiosa boicota o seu rosa,
quando o olhar espichado não alcança o telhado.

Segue-se então a rota perigosa da curva
recolhendo seus cheiros e gasturas
justificadas pela fome de lua.

Mas onde está a lua?
Está gozosa e aberta na suburbana noite.
Está corcunda e enrugada no crepom metropolitano
e, sobretudo, agasalha-se nas árvores escuras.
Naquelas em que o mistério é um proclama,
naquelas em que a palpitação da vida raiou-se soberana.


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Marinha


















Eu e o oceano somos irmãos.
Encontrei-o aos dezessete anos no Espírito Santo
e vazamos unidos rodovia acima,
caminho inverso da multidão.
Desde então, eu sigo incomportado de sal e rapsódias.

Quando sinto a língua crepitando seu fogo,
estendo bandeiras e velas e sangro como
quem quer redimir o mundo.
Neste ínfimo instante, eu e os heróis
da minha falange, aparecemos com rosas,
farpas, balas e curas nas mãos.

Mas nem sempre foi assim.
Era costume meu ver a vida da janela
até que um dia veio um vento flauteando
uma canção e eu dancei
como nunca dançara antes.
Aprendi a chover a cada nuvem desfeita.

Porque navegar é humanamente urgente,
preciso falar do amor para este
que me espera em meus sapatos.
Preciso cantar o mar que se infiltra
no coração das gentes.


Publicado no livro “Povoado”, 2006,
Editora Scortecci – São Paulo


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