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sábado, 27 de setembro de 2014

Enquanto o Sol vem vindo














Enquanto o Sol vem vindo,
a razão viaja dentro do instinto
e os lambaris bocarra,
em cardumes de mica e vidrilhos,
reluzem seus brilhos no fundo da tarrafa.

Enquanto o Sol vem vindo,
vai-se aos poucos a névoa sumindo.
A noite havia sido longa
mas, por haver aquecido a esperança,
os brilhos rasgaram a escuridão incerta
e a novidade arremessou sua flecha.
Agora, a razão descoberta
não está mais no fundo do espelho.
A sua mão construtora de devaneios,
escapa da trivialidade exata
e vai edificar trilhas nas escarpas,
onde não se concebia andar
e nem buscar tesouros ocultos
que fossem tão evidentes e que neles
guardasse um susto na revelação displicente
de haverem estado tão próximos
e de não serem desvendados
enquanto estivéramos sóbrios.

Enquanto o Sol vem vindo,
o instinto da pérola, em seu brinco,
reluz na saliência da parede
e vaza o seu mar incontido em nossa sede.
Mas o mar do globo da pérola é puro sal.
Então, salta de seu ventre a água doce
como se fosse uma visita ilustre,
e a razão surge no esmalte de um bule
porque ela já se havia na luz da cozinha,
apenas não era observada.
Estava em sua forma intacta
e aguardava a chance vagarosa e iluminada
de depositar uma rosa em nossa tarrafa
onde rebrilhavam os tesouros revelados
e o cardume prateado dos lambaris bocarra.

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

A caverna


















Olhando para dentro da caverna
é como se me houvesse um anestésico.
Tenho os olhos pesados
de clarões e tempestades.

Tenho a alma em tapeçaria ardendo seus fogos,
mas esses não são perigosos.
Os da caverna são fogos mínimos de fósforos.
A todo instante, o disfarçado cesto de vexame
está nas mãos de um figurante que não se sabe
em vertigem fulminante.

Esconde-se do verdadeiro clarão
que está estendido lá fora.
Clarão que é faca e foice,
folha e lâmina ofuscante,
porque é fogueira de cozinhar os miolos.

Na sombra abundante e fria, a caverna é
a minha ilha, a minha quinquilharia,
meu confortável aconchego de degredo,
meu sono profundo, a minha privação do medo.

Mas é lá fora que existe a minha saudade que chora.
A minha atenção além dessa frincha de luz
vai muito além de um raio escapado na parede.
Raio pintado num quadro onde o Norte
orienta-se nos lamaçais de Van Gogh.


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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Céu estrelado















Para dentro da noite e fazendo mistério das coisas
menores, o céu estrelado estende-se em diamantes.
A capacidade em descobri-lo com o pensamento
tem o nome do impossível porque o pensamento
possui a fome dos micróbios em corroer depressa as coisas belas.
É por este motivo que chega gente a toda hora em sua plataforma
vestida para rápidas e estudiosas visitas e
movendo-se no sentido do vento ao fazer torvelinhos.
As visitas duram uma fração de segundo -
apenas o tempo curto de um piscar de olhos
pois o céu, mesmo sendo eterno em sua vastidão,
necessita distribuir-se à ânsia de todos os olhares enfileirados.
Nas coisas menores, a terra mansa também deita-se
na precariedade de seu destino, imitando uma cúpula reluzente.
Mas aos dois, céu e terra, um silêncio profundo paira
para os que os testemunham sem respostas a tantas perguntas.
O tempo é imparcial e assopra o mistério secular no cumprimento
de quem passeia à tardinha devagar.
Em cada passeio espera-se pela noite e pelo céu
com o coração enfeitado com as cores do poente
e a os pés descalços aquecidos pela manhã
porque da manhã mansa, a real esperança  
nunca se desmancha e o pensamento aluado faz contas.
Num gozo de ave agasalhada em algum galho,
recolhe-se ao final das tardes,
coleciona encantos em seu embornal de humano.
Então a razão – impossível não desconfiar - é insuficiente
para desvendar os grandes mistérios da Natureza
se o céu, a terra, a noite e o tempo estão
enigmaticamente misturados numa emulsão
decifrável apenas para aqueles que fazem uso das vias da intuição.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Maquiavélico


















Ser distante a ofensas
numa paisagem
de azul amolecido.
Guardar desaforos
numa caixinha de fósforos e,
sem decoro, tornar-se
grão de trigo.
Entorpecer o tigre 
ferocíssimo e,
em silêncio, 
vigiar o vão onde
cabem rugidos
mas, acima de tudo,
não enfartar-se de raiva,
não entornar-se de mágoa,
não alvejar-se de tiros.
Eis o fino trato
para o cordial inimigo.


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