sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Pescaria












Tambaqui aqui
na lagoa boa
onde o lambari
pula, salta e voa
o menino vai
pelo mato afora
e a tarde cai
bem na sua folga
anzol no bambu
embornal de pano
olha o céu azul,
senta no barranco
linha atirada
longe lá na água
nylon com estanho
mergulha no banho
tempo passa pouco
já que peixe grande
é vadio e solto
galho-goiabeira
que se fez fieira
logo fica cheio
deitado na beira.
quando vai embora
cumbaca chiando
chega lá na casa
vem a mãe falando
põe dentro do tanque
o piau bonito
Deus que abençoe
esse meu bom filho.



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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Estética















Quem me ensinou foi tu, uirapuru,
que a beleza tem muitas formas de ser.
Quando cantas na mata, os passarinhos
fazem silêncio para ouvir-te fazer
música, bela música que encanta
por onde vai e aonde alcança.
Na aparência tua és bem discreto
quando a tudo misturas secreto.
Deve a Natureza dizer-nos
que a simetria festejada,
que o pavão em cores avivadas,
para declarar totalmente o belo não bastam.
Canta, uirapuru, pelos cantos do mundo,
pelo poço mais fundo
que os cordões dos padrões desatam.
Canta, ano após ano,
para que aprendamos o que se esconde
em mistério na vistoria do nosso olhar
quando te revelas assim soberano
em teu simplérrimo império
nos ensinando na alegria do teu cantar.


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domingo, 8 de dezembro de 2019

Intangível porto
















A cada momento 
descartamos a carne,
essa temporária imagem,
e o momento se vai,
mesmo que sutilmente,
dissolvido na bruma ambiente da memória
que hora se alegra, 
mas, também, chora
para seguir a um lugar distante,
intangível porto que se põe avante
onde haverá sempre outro mar,
esse estanque repouso de vivências
guardadas no embornal dos errantes.
O que se foi guardado fica,
tesouro que na alma habita
disponível a visitas.
Viagem em linha reta,
às vezes oblíqua,
vamos todos carregando canções,
todas gravadas em corações
com tudo o que tivemos e temos.
O passado nunca fica ausente
apesar de novas miragens
que se abrem à frente.
A graça de viver recolhe, coleciona, 
acaricia carinhosamente
as joias que tal e qual
um sopro imortal
moram dentro da gente..




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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Canção de amar






















Sal, castiçal do astro rei numa nau
Pra quem se vai no adeus vertical
É um balão de São João a subir
Numas alturas de nuvens a vir
Toda manhã novamente a brilhar
Sol no lençol de uma frase no mar
Diz que alguém que se foi vai voltar
Numa alegria ao mesmo lugar
No horizonte dos montes e vãos
Todas palavras que levam balões
Sempre revelam algumas lições
Feitas de amores e de corações.


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domingo, 23 de junho de 2019

Rola-mundo















Na onda tudo é certo
no seu jeito inexplicável.
Na onda da lagoa não
há monstro abominável.
Na onda a argamassa
enche a casa habitável.
Na onda o trabalho
não é bem valorizável.
Na onda a borboleta
é lagarta na beleza.
Na onda o tempo passa
com a sua sutileza.
Na onda a rebeldia
não aceita a imposição.
Na onda do satélite
a comunicação.
Na onda a maré
se avoluma e se encolhe.
Na onda do balão, é o gás
que faz com que ele sobe.
Na onda a galáxia
se expande e se move.
Na onda o rico trata
com desdém o lixo pobre.
Na onda o futuro,
mesmo quando planejado,
reserva uma surpresa
no detalhe impensado.
Na onda o diamante
toma a forma de uma joia.
Na onda o vento dança
e depois a chuva molha.
Na onda o mistério
abre a porta ao turista
Na onda a noite longa
tece a trama de uma pista.
Na onda da visita
numa regra a moda dita,
mas na velocidade 
tudo é tarde, nada fica.
Na onda a alma segue
pela estrada do infinito.
Na onda a estrela sonha
o início de outro ciclo.
Na onda que chacoalha
no ouvido o seu guizo
No sono não se ouve
o alerta para um risco.


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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Além das estrelas















O escaravelho olha para o infinito
com lembranças do Egito.
A cada fitar milimétrico,
anseia por novo mistério
que brinque além das nebulosas
e desabroche-se feito rosas.
E ele aventura-se na noite
com a sua audaciosa foice
a fim de rasgar os véus
que lhe encobrem os céus.
Apesar da aparente velhice
e do pouco que aviste,
imagina o longe insondável
para sua fé inabalável.
De lá, uma doce voz lhe chama.
Voz conhecidamente que ama.
Por isso ele se esvai sem medo
no éter sedutor de segredos.



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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Agasalho














Saudade de amor não é abafante.
É branda e sempre galante
enovelando uma ausência cálida.

Saudade de amor não se abala.
Não queima gorduras,
acanaviando-se em noites longas.

Saudade de amor carrega um nome,
gesticula carícias, graceja memórias,
revela-se em afagos de doces rimas.

Saudade de amor borbulha vida
e não se instala em abismos.
Não constrói castelos longínquos
nem se prende em espaços ínfimos.

Saudade de amor é aérea.
Vem sem aviso prévio, sem encosto fixo.
Não é acrílica nem feita de nuvens indecisas.

Saudade de amor não é adversa.
Nunca se apressa nem se engole em brumas.
Saudade de amor é pluma
e valsa lentamente revolvendo sorrisos.

Saudade de amor não se abezerra.
Ao contrário, espera,
ondula-se carinhosamente
volteando na mente
a presença preciosa do ser amado.



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