quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Estética















Quem me ensinou foi tu, uirapuru,
que a beleza tem muitas formas de ser.
Quando cantas na mata, os passarinhos
fazem silêncio para ouvir-te fazer
música, bela música que encanta
por onde vai e aonde alcança.
Na aparência tua és bem discreto
quando a tudo misturas secreto.
Deve a Natureza dizer-nos
que a simetria festejada,
que o pavão em cores avivadas,
para declarar totalmente o belo não bastam.
Canta, uirapuru, pelos cantos do mundo,
pelo poço mais fundo
que os cordões dos padrões desatam.
Canta, ano após ano,
para que aprendamos o que se esconde
em mistério na vistoria do nosso olhar
quando te revelas assim soberano
em teu simplérrimo império
nos ensinando na alegria do teu cantar.


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domingo, 8 de dezembro de 2019

Intangível porto
















A cada momento 
descartamos a carne,
essa temporária imagem,
e o momento se vai,
mesmo que sutilmente,
dissolvido na bruma ambiente da memória
que hora se alegra, 
mas, também, chora
para seguir a um lugar distante,
intangível porto que se põe avante
onde haverá sempre outro mar,
esse estanque repouso de vivências
guardadas no embornal dos errantes.
O que se foi guardado fica,
tesouro que na alma habita
disponível a visitas.
Viagem em linha reta,
às vezes oblíqua,
vamos todos carregando canções,
todas gravadas em corações
com tudo o que tivemos e temos.
O passado nunca fica ausente
apesar de novas miragens
que se abrem à frente.
A graça de viver recolhe, coleciona, 
acaricia carinhosamente
as joias que tal e qual
um sopro imortal
moram dentro da gente..




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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Canção de amar






















Sal, castiçal do astro rei numa nau
Pra quem se vai no adeus vertical
É um balão de São João a subir
Numas alturas de nuvens a vir
Toda manhã novamente a brilhar
Sol no lençol de uma frase no mar
Diz que alguém que se foi vai voltar
Numa alegria ao mesmo lugar
No horizonte dos montes e vãos
Todas palavras que levam balões
Sempre revelam algumas lições
Feitas de amores e de corações.


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domingo, 23 de junho de 2019

Rola-mundo















Na onda tudo é certo
no seu jeito inexplicável.
Na onda da lagoa não
há monstro abominável.
Na onda a argamassa
enche a casa habitável.
Na onda o trabalho
não é bem valorizável.
Na onda a borboleta
é lagarta na beleza.
Na onda o tempo passa
com a sua sutileza.
Na onda a rebeldia
não aceita a imposição.
Na onda do satélite
a comunicação.
Na onda a maré
se avoluma e se encolhe.
Na onda do balão, é o gás
que faz com que ele sobe.
Na onda a galáxia
se expande e se move.
Na onda o rico trata
com desdém o lixo pobre.
Na onda o futuro,
mesmo quando planejado,
reserva uma surpresa
no detalhe impensado.
Na onda o diamante
toma a forma de uma joia.
Na onda o vento dança
e depois a chuva molha.
Na onda o mistério
abre a porta ao turista
Na onda a noite longa
tece a trama de uma pista.
Na onda da visita
numa regra a moda dita,
mas na velocidade 
tudo é tarde, nada fica.
Na onda a alma segue
pela estrada do infinito.
Na onda a estrela sonha
o início de outro ciclo.
Na onda que chacoalha
no ouvido o seu guizo
No sono não se ouve
o alerta para um risco.


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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Além das estrelas















O escaravelho olha para o infinito
com lembranças do Egito.
A cada fitar milimétrico,
anseia por novo mistério
que brinque além das nebulosas
e desabroche-se feito rosas.
E ele aventura-se na noite
com a sua audaciosa foice
a fim de rasgar os véus
que lhe encobrem os céus.
Apesar da aparente velhice
e do pouco que aviste,
imagina o longe insondável
para sua fé inabalável.
De lá, uma doce voz lhe chama.
Voz conhecidamente que ama.
Por isso ele se esvai sem medo
no éter sedutor de segredos.



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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Agasalho














Saudade de amor não é abafante.
É branda e sempre galante
enovelando uma ausência cálida.

Saudade de amor não se abala.
Não queima gorduras,
acanaviando-se em noites longas.

Saudade de amor carrega um nome,
gesticula carícias, graceja memórias,
revela-se em afagos de doces rimas.

Saudade de amor borbulha vida
e não se instala em abismos.
Não constrói castelos longínquos
nem se prende em espaços ínfimos.

Saudade de amor é aérea.
Vem sem aviso prévio, sem encosto fixo.
Não é acrílica nem feita de nuvens indecisas.

Saudade de amor não é adversa.
Nunca se apressa nem se engole em brumas.
Saudade de amor é pluma
e valsa lentamente revolvendo sorrisos.

Saudade de amor não se abezerra.
Ao contrário, espera,
ondula-se carinhosamente
volteando na mente
a presença preciosa do ser amado.



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sábado, 14 de julho de 2018

Invocação














Eu também tenho uma capa,
uma espada e um anel.
Quando quero, invoco
as forças da Natureza
com palavras secretas.
Elas se ocultam por trás de versos
ao olhar desatento sob a forma
de peixes, montanhas, mares,
rios e navios.
Assopro na casca do poema
e meu feitiço se infiltra,
indo morar no fundo das letras
onde flutuam caracóis,
algas e enguias.
Ao leitor dedico o meu Amor,
minha líquida magia fraterna
e construtiva.
Mesmo íntima e silenciosa,
circula a Terra sob a forma
de uma chuva solidária
para os desertos.
Na solidão do ser humano
gotejo minhas emanações.
sereno vibrações rotineiras
que falam aos corações,
mas minha voz deve ser baixíssima,
quase inaudível.
Por isso também me faço oculto
e invisível com minha capa,
espada e anel posto que escolhi,
desde cedo, deitar a alma
enigmática no papel.




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