sexta-feira, 1 de maio de 2015

O Curupira











Não existe sombra por onde se esconda
algum covarde, pois que em toda parte
há um curupira que tira e destrava armadilhas,
há um lobo guará capaz de um fogo
que consumirá a montanha da base ao topo
numa façanha de pequeno esforço.
Para todo mistério oculto
que se enovele num vulto
no fundo de um vale onde dormem jazidas,
existe aquele dia que um dia chegará.
Antes mesmo que a luz da manhã se revele
abrindo a nave, a voz da verdade
há de  intimar tudo o que  antes vivia
no confinamento dos constrangimentos
e, por absoluta necessidade,
alguma mentira há de esgotar a vida
por não haver outra maneira
de encolher-se costumeira em planos
de enganos e intrigas.


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Selfie



















Na teia da aldeia de McLuhan,
tarde em Zimbabwe, 
manhã em Roterdã.
Na velocidade têxtil 
e hábil de um alfarrábio,
um constante rolimã 
na página estendida
com a notícia do dia, 
mas ela não está nem aí.
Está sozinha nos afazeres de rotina.
No que abre e fecha 
a flecha de um satélite na retina,
fotografa o flagrante 
no instante dela na piscina.
Sonâmbula e esquecida, 
ela não vê a tarântula em sua vida
e deixa o tempo correr 
porque o tempo não vaticina.

A guerra do Iraque 
foi um baile, e o neon
no cheiro da Grande Maçã 
não é doce ilusão em braile,
porque a rainha não se sente cega 
e analfabeta na escuridão.
Depositou-se envolta 
numa polpa de caqui
e a dificuldade alheia
não lhe interessa na pressa
em se exibir.
A sensualidade é a sua única verdade 
no concurso de uma beleza de areia
que desabrocha feito rosa
na beira da praia em maré-cheia.


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Trânsito












Com uma lanterna,
eu ilumino o espaço onde não haja
litígios fronteiriços nem espinhos,
porque a alma a tudo sonda
no vai-e-vem de uma onda.
Embrulho-me em papel-presente
e deslizo em palácios de vento
e colchões de ar quente
para salvar tudo no sumidouro
revoluto de um segundo.
Contra a inocência,
o resto de noite assombrada
nada pode ou dilacera
se, com a multidão apinhada,
eu também sonho e me engano
na avenida alumbrada
da manhã de madrepérola.


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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Ezequiel e Elias













Nos campos de Ezequiel existem flores vivas
e limalha inexpugnável de ausências dissolvidas.
A cada lembrança, surge uma nova hidra
em  aliança a um arquipélago de ilhas.
Não é só em uma, mas em muitas linhas,
que se recurva o tecido da blusa fina.
Quando a noite é fria, as vias de fatos guardados
escutam a história que grita num baú fechado
e, antes que se faça esquecida, estende
suas trilhas numa escala infinda.
Essa onda de tecido liso não proclama,
mas derrama a memória do seu mito.
Queda-se calada na casa do delírio
e profetiza o lado inverso das coisas
onde pessoas alcancem um sentido.

No carro de Elias, viaja outra profecia.
Queima-se um vento de sarça com cheiro de mirra
e tudo viaja ao mesmo tempo no ainda.
Vaga o quadrante das estrelas
e passa em voo rasante de cometa
sem que alguém o perceba,
porque é detrás das coisas
que valorizam as pessoas
que existe essa casa aberta
sem paredes, portas e janelas,
onde repousa o que mais se deseja.

domingo, 11 de janeiro de 2015

A lavadeira














A lavadeira, quando se levanta,
gargareja e balança a anca.
Leva água ao céu da boca
e lava fresca a varanda.

A lavadeira, quando submerge
na beira com voz de anja,
faz festa a manhã inteira na barranca.

Ao meio-dia de manteiga derretida,
lava a vasilha de fazer comida
e chama chuva, cantando murcha,
em posição de telha-cumbuca.

Quando perambula de volta ao grotão,
espicha a perna na bicicleta
e pedala suada na tarde ordinária,
levando rouca a trouxa de roupa
e a panela na mão.

Quando chega, os braços em tiras,
pano na cabeça, canta ainda.
Faz janta para a filha e fala da birra
ao vencer aquele dia com a pele
cheia de pés-de-galinha.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

No fundo do coração















No fundo do coração humano,
onde dança sedutoramente  
toda sorte de escambos,
existe uma coleção de sapatos
que já foi utilizada em espetáculos.
É onde se guarda o fausto de toda gala.
Há peixes que vêm e vão sem que
o coração saiba exatamente quais permanecerão.
Há rancores alimentados num aquário.
Há pneus desgastados dos lugares visitados
pelo eu em bailes de mascarados.
Entretanto, não há grandes precipícios.
O que se encontra é um mágico enigmático
escondido na rasura dos orifícios,
que sabe plantar um coelho que servirá de esteio
a quem procure abrigo.
O horizonte é um campo branco de cálcio
onde se inscreve a sorte dos delírios performáticos
e é do fundo do coração e não da língua,
que vem a lâmina gasta de selecionar palavras.
Toca o aboio grave para a mais amarga,
considerada joio de ameaças.
Deve ser tangida e urgentemente rejeitada.
Quando chove elogios, os pingos borrifam o deserto.
Vem então um vendaval refrescante
e, no mesmo instante, inflado de felicidade, 
suspira realizado o ego.
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domingo, 28 de dezembro de 2014

Flauta















Toca, vento, a flauta de mamona,
e atiça essa dança
em quem dorme primeiro
na festa de terreiro,
com a cantiga de Luanda.
Caça, vento, cada furo
na bagana de uma chave
nessa cana que invade o escuro
e liberta a ciranda
na sonora melodia sem demora
que preenche o ambiente
com o tônus de uma ária
deste colmo de bambu
e de corpo braquiária.
Bate, vento, cem por cento
bem lá dentro deste caule
e espalha a sonora
que dormia lá no balde
a espera de um momento
que tornasse valiosa
a estrela escondida
no borralho dessa vida
congelada de demora.
Manda, vento, esse canto
onde a bula que atua
lá na rua em prol do esquecimento,
seja sucumbida nesse movimento
e consiga  audiência
numa onda de freqüência
tão precisa que até
quando improvisa
sempre faça encantamento.



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