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domingo, 28 de dezembro de 2014

Flauta















Toca, vento, a flauta de mamona,
e atiça essa dança
em quem dorme primeiro
na festa de terreiro,
com a cantiga de Luanda.
Caça, vento, cada furo
na bagana de uma chave
nessa cana que invade o escuro
e liberta a ciranda
na sonora melodia sem demora
que preenche o ambiente
com o tônus de uma ária
deste colmo de bambu
e de corpo braquiária.
Bate, vento, cem por cento
bem lá dentro deste caule
e espalha a sonora
que dormia lá no balde
a espera de um momento
que tornasse valiosa
a estrela escondida
no borralho dessa vida
congelada de demora.
Manda, vento, esse canto
onde a bula que atua
lá na rua em prol do esquecimento,
seja sucumbida nesse movimento
e consiga  audiência
numa onda de freqüência
tão precisa que até
quando improvisa
sempre faça encantamento.



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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sopro


















Que a minha voz alcance
a distância transatlântica
e se espalhe supersônica
nos reinados distantes
de todos os quadrantes,
invocando agora a música
num convite de súplica:

Vinde do outro mundo,
sanhaços de coqueiro,
gaviões caramujeiros,
jaçanãs-galo,
gralhas do cerrado!
Trazei o vosso encanto,
sabiás-laranjeira,
jandaias de testa vermelha,
garças-vaqueiras.
Trazei vossa beleza e vossa bandeira!
Vinde aquecer o olhar dos mendigos
e acordar do semblante cítrico
aquele que revira papéis em sua mesa de vidro!
Vinde, falcão de coleira,
coruja de igreja!
Ensinai-nos o lucro das astúcias em viajar lonjuras
e os redemoinhos efêmeros
das estrelas que giram e assopram
coisas em nossos ouvidos.
Trazei o êxtase dos antídotos
para curar o insípido
e  uma litania de agradecimentos
para ser lida numa tarde límpida.
Vinde andorinhas e curiós!
Vinde trazer a flor acetinada
no curso dos ventos
e dissipar o sentido modorrento.
Costurai vosso canto em nosso silêncio,
bico-de-agulha, beija-flor-tesoura!
Trazei vossa energia
e levai a nossa melancolia!
Apossai de tudo, bico-de-veludo,
galo-do-campo, canário-da-mata!
Trazei a alegria que esparrama
em cada coração que ama
e inundai-nos com vossas manhãs ainda na cama!
Trazei vossos pífaros para uma festa!
Vinde uirapuru e beija-flor-do-peito-azul,
quando estivermos nus!
Vinde cambaxirra,
quando não existir mais saída!
Vinde, bico-de-louça, 
quando a esperança for pouca!

Quando fraquejarmos na luta,
trazei da distância funda
os cabelos de Iracema, graúna!
Assim, estaremos em vós
para cantar um canto que não seja outro
senão aquele de arder o fogo
e renovar o verdadeiro sopro
de embelezar a vida
ao fazer a esperança
cada vez mais ouvida!!!



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sexta-feira, 18 de abril de 2014

A Música





















E ela esticou o couro cru dos cururus
na retumbada esperada que bateu maracatus.
O frevo cedo que passou sua sombrinha
atingiu a avenida colorida de Olinda.

E vinha marcha com a banda repicando
aquele verso embalado pela Lia da ciranda.
E ela rodou a noite toda impressionada
com a toada que nascia bem no brejo das taboas.

Na mesma sala de concerto onde tocava
o corta-jaca, acenava a paisagem da sonata,
e ela gostou de avistar o rock´n roll naquela casa
onde ficava a sinfonia assinada.

E se vestiu mademoiselle respeitada feito
a filha que tocava na guitarra Chuck Berry
e foi seguindo a rodovia animada, espalhando
a magia com a turma que dançava.



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