segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Presença













Mas qual é o mérito
de um cemitério
se lá depositam-se
as casquinhas de um pretérito?
Se lá se desgastam
antigas roupas velhas
que já não servem?
Se no adro dos espaços
andam em meio a flores
e sabiás canoras
aqueles que acreditam-se
que foram embora?
O que dorme em minério
é um rio seco,
um galho vesgo,
uma pedra a esmo.
O ouvido do espírito, não,
está no vento pleno,
pulsante e vivo
e, mesmo que invisivelmente
pareça ausente,
pode, muitas vezes 
com o coração,
ser sentido.


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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Festa












Em tempo de chuva
bunda de tanajura
é igual jabuticaba:
nunca que acaba.

Vai correndo, Duda,
com a mão na lata,
chamando à luta,
a meninada!

Cai na gordura,
cai embalada,
pois a fritura
é farofada!

Vem tanajura,
vem despencada
enquanto a chuva
deu uma parada!



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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Vestido Branco














Na educação dos afetos, 
canta a voz do sereno
a melodia em libra 
porque é tamanha
a harmonia que a ela 
nada escapa
ou se desperdiça.

Sua voz enigmática 
acalma as borrascas
e no solo seco florescem carinhos.

Onde insistiam-se os desacordos,
desmancha-se o ponto lodoso,
e as contrariedades ficam sorrindo.

Apagou-se de vez o fogo intermitente
fadado a durar inclemente.
A ofensa, que nasceu para durar um século,
não causa mais dor ou dano de espécie alguma.
Chegou o perdão com um sopro de abano,
trazendo a paz que a tudo cura.
Na troca da paixão por compaixão,
transforma-se todo o efeito da música.


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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Canção do Exílio

                   














                   Para Vinícius Cabral, um menino de ouro

A minha saudade daquela paisagem
caminha ao lado da coragem
de vencer os percalços
na escalada para o alto
em trilhas de pedras
e espinhos de um único caminho
porque lá em cima,
perto das nuvens,
está o meu ninho de passarinho.

Meu leito acolchoado me espera
quente, suavizado e confortável
neste lugar de palmeiras
e sabiás inimagináveis,
onde amigos muito mais
que amáveis assopram
a gentileza amorosa numa flauta.

Mesmo distante, de vez em quando,
vem de lá a música instigante
e o sentido adormecido
acorda por um instante maravilhado
com tamanha beleza, suspira,
e glorifica a vida no que deseja.

Quer inundar-se daquela luz tão alta
e vestir-se dela para viajar
na claridade das esferas,
onde o vento encantado da flauta
faz rodopios em redemoinhos
e por vezes enche de esperança
o coração cansado de um peregrino.




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sábado, 29 de agosto de 2015

Nobreza

















A humildade digna
é amiga
fidelíssima
da renúncia.
Ao perder, ganha,
acumula e apanha
a pesada cruz
usando um capuz.
Guarda dentro de si
a tormenta de um frenesi,
mas a confiança
robusta,
faz de sua
justa renúncia
um tempo de paz
íntimo em espaço
humílimo
de volúpia.



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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Imaginação













Em minha mão aberta
existe um pássaro
quieto que repousa o século.
Em sigilo, não quer
anunciar a rota
que conduz ao Paraíso.
Permanece vivo e quieto
quando o mundo está colérico.
Quente, inventa-se
no inverno indiferente e ali,
no mapa da mão, estuda a planície
riscada de ruas que vão.

Abraça tudo o que existe na superfície
e, num suspiro, devolve
o tesouro conquistado
para que seja novamente
ignorado e conquistado em vão.

Quer o silêncio do vento
quando ronda as casas
e o alívio das almas lavadas.
Quer a distância das falas
e do ruído da multidão.
Descansa ali quieto,
mansamente e justo,
esperançoso no crepúsculo
com a chegada das estrelas,
pois, mesmo na floresta da noite,
existirão belezas
capazes de afugentar o dragão.


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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Um nome na areia














O céu dentro de si é um pássaro calado,
observando o espaço vago.
Dia desses, quando for chamado,
haverá de bater asas do alto
e de avizinhar-se bem próximo de nós,
que escrevemos na areia o estatuto do Amor
na  pretensão de que a palavra
sobreviva às borrascas
e às tempestades nunca esperadas.
É desta forma que eu escrevo na areia
a minha verdade máxima
que não é exclusiva ou inédita:
amar, amar e amar até anular
a força das reações intrépidas.

Essa minha voz é polifônica
porque canta ao lado da boa-vontade agônica
daqueles que pastoreiam o lume
da noite e anseiam o mundo diferente,
numa delicadeza mais abrangente.

Meu testemunho na areia é meu testamento
em amizade familiar com o vento,
que conhece o caminho de sal dos oceanos
e o alívio para os desenganos.
Escrevo sozinho para esse sopro,
que remove o pó com carinho
numa espiral dançante
e o conduz aos reinos beligerantes
em que a paz esperada
no clarão da madrugada
é o íntimo pedido de um coração aflito.
Chegue lá longe onde nem sei,
a minha esperança em forma de palavra sussurrante
na caverna dos ouvidos
e ela não será minha, mas nossa.
Nós, que cantamos o mesmo coro,
que falamos a mesma língua,
que comungamos o mesmo princípio do Amor sem nome,
sem dono, sem bossa,
depositado na areia para viajar no vento e na cheia
até os longínquos destinos a que possa.




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