domingo, 16 de novembro de 2014

Matraca















No lodo dos engodos,
a palavra corta o outro lado da faca
e forma um cadafalso enquanto caça.
É bem capaz de descer do céu para o esgoto
e fazer nuvem de fumaça
para enganar os outros com sua barca.

Enquanto a palavra afiada dorme no sossego
do leito em formidáveis ternuras,
no passeio das intenções futuras
multiplicam-se os gatos que revistam
migalhas nos cantos dos telhados
e estendem a mão ao que acumula.

Se o lado certo repousa,
evolui a lâmina do outro lado
e, numa fraqueza de louça,
a voz que deveria ser um brado,
deita-se em cegueira de existência
diante da indolência no errado.

Antigos cavalheiros tornam-se velhacos
e passam a ocupar o espaço alheio
porque o que estivera antes elevado,
confundiu-se por inteiro com o que há de baixo.
O Cruzeiro do Sul e as baronesas da lagoa
fazem amizade à queima-roupa,
e as  coisas que deveriam ser ditas,
tornam-se esquecidas no fundo da boca
em nome da palavra solta, que tornou-se falsa
no interesse ou no leito de sua pausa.


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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Olhos roídos














Ando à toa no sentido de
um sujeito qualquer pela cidade.
Faço minha, a responsabilidade
de andar com os olhos roídos,
a procurar o sentido perdido
do verbo amar.
Faço-me intencionalmente distraído
numa astúcia lúcida,
e espicho o pescoço
para avistar algum rosto
que esteja amando de verdade.
Mas na cidade tudo é misturado.
Confunde-se alhos em bugalhos
e cisnes em farrapos,
e o amor é uma distração
disfarçada nas frases da televisão.
Ama-se dizendo eu te amo toda hora,
sem se importar que o amor
é a solidariedade que vigora
e queima o fogo prazeroso
na vastidão do gozo sem
se extinguir a toda hora.




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Faixa de Gaza














Na Faixa de Gaza,
um anjo reza no impulso beligerante
e aquartelado de uma cidadela.
Reza numa silenciosa promessa alada,
cuja resposta virá nos momentos difíceis
em que as asas dos mísseis
escapam da cela.
Depois das explosões e da fumaça,
depois da destruição que devasta,
é bem provável que tudo pareça
um vazio de nada.
Então, nos campos onde deitaram-se os corpos,
nascerão flores para receber
continuamente uma nova safra de gentes.
Nos portos, onde a primavera
da natureza humana nunca se descansa,
haverá outro ciclo de oportunidades
em se desviar dos precipícios
na contínua promessa de felicidade.
O anjo reza sabendo de tudo isso.
Reza, compreendendo o fulcro
das intolerâncias no mar das ignorâncias,
mas, ainda assim, reza.
Confia que a trágica cena de guerra
seja uma pequena flor de inspiração
e esperança em melhores dias
no coração de algum poeta.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

TIRADENTES




                               











                        Para Francisco Sales

Numa cidade antiga, Minas conta estórias
nas pedras tortas de uma tarde luminosa.
Os músculos de carvalho escravo as estenderam ali,
em ziguezagueado, para guardarem
o destino dos cascos dos cavalos.

No batente das portas, no arco das janelas,
no sereno das lanternas, dorme o tempo colossal.
Dorme sussurrando o limo longínquo do passado
no antigo chafariz de pedra.

Nos intervalos de ramagens
que nasceram no vão dos telhados
tudo é verde-acinzentado pois que debaixo
do céu eterno conspira a voz dos heróis,
a delicadeza das musas e a esfinge dos poetas.


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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Pendores
















Se hoje mais tarde, ao descerrar
a cortina, o espetáculo
não for o que se imagina,
que as mãos dadas apitem a urgência
em pulmão de cigarra e o sol, em espigas,
coloque as expectativas 
dos nervos em desmantelos
na devida proporção da calma.

Se hoje escurecer mais cedo,
que a luz esclarecida e dissipadora de monstros
leve para longe os medos.
Que as mãos unidas, nas nuvens errantes
durante a noite vacilante,
orientem a estação da vida.

Que o auxílio se torne uma arma no exílio
e faça outro desfecho na manhã de flamboaiã.
Que no lugar das queixas nasçam roseiras
e o otimismo seja a grande bandeira.

Se fizermos isso, o nosso egoísmo
não será mais um andarilho
cuja lamparina ilumina o trilho enaltecido
a buscar na vaidade o próprio brilho.
Faremos desse auxílio 
nossa maior virtude nos empecilhos
e nos demoraremos o máximo possível
em conversas adoráveis ao pé da fogueira,
ouvindo o cantar dos grilos no luar amolecido.
O nosso coração, que vivia então só,
não poderá negar que a solidão
de sua constituição de pó
é uma rosa talentosa repleta de pendores,
cuja vocação amorosa é a de se elevar
na superação de suas dores.
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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Grande Amor

















Nos dias de guerra e chuva
de papel picado na rua,
há um torvelinho aberto por uma boca feroz
para arrastar o sino até a foz.
As mazelas da Nova Ordem parecem velhas
como são velhas as façanhas festivas
acesas no braseiro do céu
e a garantia do arsenal das ogivas
que coloca famílias no banco dos réus.

Porém, a paz está preservada no vento vadio,
que evolui além de Israel
e participa da manhã nas colinas de Golã.
Esse vento anônimo,
muito além dos poderes atômicos
dos grandes blocos econômicos,
chega com os pés macios,
como se não lhe houvesse um rumo
definido no mundo.
Chega descalço das falanges do infinito
num testemunho,
e é como se a eternidade
estivesse presente a cada segundo,
confirmando o oceano superior
acima dos possíveis planos,
que por egoísmo ou por engano,
não percebam o Grande Amor.

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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Os Botocudos















Os índios botocudos do futuro
serão ultramodernos e cibernéticos
e não contarão mais com
a floresta do Rio Doce como escudo.
Alguns poderão ser encontrados em alguma calçada,
tendo nas mãos um litro de cachaça,
e nem se lembrarão de que já
foram senhores do rio
e navegavam nele horas a fio.

Os índios botocudos do futuro
que se salvarem da dizimação
e aceitarem a promessa da salvação,
viverão recostados em algum muro
e de nada se lembrarão da noite estrelada.
O vento varrerá do seu segredo
a Lagoa Dourada e a Serra de Prata
e não haverá mais gritos
porque no silêncio dos eruditos,
tudo deve ser contido.
Quando decidirem, numa prática rotineira,
garimpar o ouro de antigamente
em terras estrangeiras,
em alguma foto eles parecerão mais bonitos,
trabalhando duro na neve dos Estados Unidos.


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