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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Fado
















Perguntei ao fadista sobre a minha fortuna
e, enquanto perguntava,
uma fagulha de esperança precipitou-se ao chão
apagando o mapa das minhas mãos.
Turvou, embora tornasse atrativa, a minha estrada,
e passei a buscar coisas atrás das moitas
- do medo, brotou um pé de desejo.

A árvore cresceu numa escadaria
em forma de búzios e búzios
em forma de galáxias
(e a pobre bruxa vazou veneno
ao apagar-se por dentro).

Batizei, então, de coragem o meu fiapo de fúria,
minha glória de medir forças
com montanhas imaginárias.
Tentei fazer de cada momento algo extraordinário.
No escuro de hulha, arrisquei o salto
antes de fabricar na chuva o sapateado.
Para uma vida em nada segura,
aceitei sua beleza oculta,
e adotei à noite os olhos da coruja.


.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Portal


















À soleira da porta eu imploro
um bocadinho de coragem
para seguir viagem nesta procissão
sonâmbula nos fundos valos das cavernas,
comungando de visões eternas
amarrotadas em flores.
No estar-se à mercê do infinito,
cada qual abraça o seu jardim aflitivo,
mas os roseirais são muitos,
todos plenos de louvores,
todos santos redentores,
e o silêncio vale ouro.
Por isso, enriqueço-me em ignorância.
Ah, minha santa ignorância!
Para cada fio de segredo armazeno
um tufo de cabelos e deixo oculto
o porto de chegada em detrimento
da beleza da estrada.
Para a grande descoberta,
a expectativa será sempre velha
pois, no ponto final gastou-se a fúria,
amainou-se a busca e toda a história
foi-se, posto que aparenta ser,
embora não exista ponto final.
O que existem são magníficas surpresas
para a verdade numa estrada de belezas.
Vejo tudo com olhos de menino,
anoto tudo em meu diário de bordo,
reviro infernos em meus versos.
Até mesmo os infernos são belos
se não se fecham em verdade
mas mantêm-se sempre abertos.