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domingo, 30 de novembro de 2014

Engenho















                                           Para Karla Nascimento

Ao final, a ramagem de cipreste alisou-se fina
em cabelos e acalmou o agreste chão,
polvilhado em desmantelos.
Aquelas viagens longas, tornaram-se mais breves
valorizando, enfim, as lembranças mais leves.

Ao final, arrebentou-se solene aquela semente
que anteriormente era a mais resistente.
Serenou-se o espetáculo notável dos ímpetos
e as astúcias, folgaram-se aliviadas nos vínculos.

Ao final, sob o efeito nutriente de um vendaval,
os passarinhos mais velhos e enfraquecidos,
resolveram visitar um deus marinho, e o sacrifício
encontrou no azul límpido o final de um crucifixo.

Ao final, tornaram-se planas as ladeiras agudas e
serena, a descrença insana recitou uma sutra
porque em paz, os esplendores acordaram-se do sono
mundano para o incandescente brilho e a pele gasta
no engano, valorizou as rugas na estrada de cada ciclo.

Ao final, a nuvem fria transformou-se em alegria,
o engenho do tempo dissolveu as esquinas e,
num antigo madrigal, as antipatias rederam-se mínimas.

Ao final, cada objeto em repouso agradeceu
seu lugar de pouso e rendeu graças ao Vigia,
pois tudo se resolveu misteriosamente
como não se sabia e fossem desnecessárias
aquelas preocupações insistentes do início do dia.




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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Fado
















Perguntei ao fadista sobre a minha fortuna
e, enquanto perguntava,
uma fagulha de esperança precipitou-se ao chão
apagando o mapa das minhas mãos.
Turvou, embora tornasse atrativa, a minha estrada,
e passei a buscar coisas atrás das moitas
- do medo, brotou um pé de desejo.

A árvore cresceu numa escadaria
em forma de búzios e búzios
em forma de galáxias
(e a pobre bruxa vazou veneno
ao apagar-se por dentro).

Batizei, então, de coragem o meu fiapo de fúria,
minha glória de medir forças
com montanhas imaginárias.
Tentei fazer de cada momento algo extraordinário.
No escuro de hulha, arrisquei o salto
antes de fabricar na chuva o sapateado.
Para uma vida em nada segura,
aceitei sua beleza oculta,
e adotei à noite os olhos da coruja.


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