sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Criação do Mundo





















Num movimento lento, a calota polar
dança vestida de branco.
A noiva, em flor de laranjeira imaculada
e com o amor de imã,
tem numa caixa um gesto magnético e,
com a voz divina, chama pelo nome,
uma a uma, as ovelhas que pertencem
a seu campo de flores.

A exemplo dos planetas e das palavras,
os íons agrupam seus amores num manto d’água
e a cabeleira da cachoeira
farta-se entre as pedras e palmas.

São as eras, uma a uma, as próprias ovelhas.
Na primeira, a engrenagem estática gira o moinho e,
num torvelinho, aparecem os minerais,
o vírus, a bactéria e os projetos de alma.
Na segunda, as moléculas agrupam-se,
e surgem as plantas mais simples e os animais.
Na terceira, há esta música misteriosa
na atmosfera gasosa: música mágica,
constituída de intestinos e pernas,
cujo destino sempre perguntará pelo seu nome:
o próprio homem.


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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Estrella Galícia















                                    Para Concha Rousia

As ruas de Santiago de Compostela são galegas.
Distraem-se vesgas por entre igrejas e promessas
mas, mesmo assim, existe a menina Conchita
com um clarão na vista que a tudo recicla:
o momento em que o horizonte enfarta,
o besouro franzindo a tarde,
e a cigarra que dispara.

As ruas de Santiago de Compostela
possuem labirintos de seresta
e o feixe seco das uvas de outrora
na música de viola.

Nas ruas de Santiago os mortos
que não estão enterrados em seus corpos
fazem saques nas cascas das árvores
e vivem de porta em porta a pedir esmolas.

Pelas ruas de Santiago há trilhas cavadas
por andarilhos de sapatos, mas,
no chão abaixo do granito liso,
dorme o verdadeiro ouro sem ser incomodado.




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sábado, 12 de outubro de 2013

A INVEJA













No fundo das tuas costas
mora um dardo assinalado sem doer:
míssil estacionário para explodir desacelerado
a cada mau olhado que te vê.

E quem te olha é teu próximo,
teu amigo quase parente,
que desejando ter o que tens somente,
ambiciona ter o teu ser.

Quando nele silva a serpente secreta
que nem ele se dá conta,
a sopa da inveja é um mar vagaroso
que, aos poucos, engrossa-se lodoso
procurando comida pronta.

A frustração é a principal embarcação
fadada a conquistar silente,
traiçoeiramente,
a vitória preciosa alheia,
retirando das tuas veias teu precioso ouro.

Mas esse desejar é tolo
porque o ouro do outro,
quando roubado, é ouro de tolo,
se já está destinado.
A inveja que ficam sentindo
do quintal vizinho
repleto de passarinhos
é apenas olho mesquinho.

Perdoa-lhe este mal,
pois tu também te invejas
quando abres a janela
com a alma em poço de cisterna
e em tua praça de guerra,
lá nos domínios íntimos,
buscam as feras os píncaros
de outras costas próximas,
mas, esta moral sórdida, escondes
num telhado de flandres
para que ninguém veja,
exceto aquele que deseja
ver-te como és:
ser humano de convés
mas que tem também um lodo
preso num calabouço.






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sábado, 5 de outubro de 2013

Perfumaria




















O jasmim e certos tipos de lírio florescem
em formato de arbusto e o busto dos governantes,
com o bronze aberto, não é páreo
para o seu garrancho de folhas.
Os roseirais vaporizados vagam espaços
de arcanjos nunca considerados,
pois é preciso um jeito de olhar as flores e entender o azul,
bem como o cheiro da lembrança crônica entornada nas gavetas largas,
lavadas de amores caros de Istambul.
O amor evapora como as flores que vão embora
sem nunca deixar a essência original.
Debandam-se para os lados do Nepal.
Evoluem, volteiam. Depois voltam.

Olho de boi estendido no rio mata inveja gorda.
Recolhe-o lavando a roupa a moça de morenas coxas
e guarda-o no bolso da blusa enquanto olha as flores:
- Meu namorado me ama...
A madressilva se confunde com as abelhas.
A água lambe a margem em saudação festeira
e a vegetação tem um jeito escondido,
guardado no verde, mas, ainda assim, acessível.

A cerejeira, efêmera e bela, voa em perfeição
no ritmo do dente-de-leão.
Parece dizer que o rio flui,
que tudo flui sem nunca apagar.
Flui como num sono
que esconde o verde,  esconde a moça,
o amor, as rosas e os jasmins.




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sábado, 17 de agosto de 2013

História do Batatinha















No pasto, as louras flores de camomila,
E na terra, os afazeres das formigas,
Dão-se reinados para seus olhos
Que no mundo vagueiam incólumes

Porque o mundo guarda-se imaculado
Nas gavetas de tesouros inviolados
Onde o cego nunca saberá por certo
A real vastidão do seu deserto.

Ao norte, esquivando-se das bússolas,
Passeia ele em formosuras.
Não guarda ofensa miúda
E contenta-se com o perder-se na rua.

Em noite púrpura que a tudo encobre,
Agasalha sapos e gafanhotos nobres
Que haver-se-ão empossados,
Cada qual em seu mandato.

Nem antes e nem depois, mas no ponto,
Na reta onde está o encontro
Para as cortesias e os acidentes,
Vai o doido cismando silente.

Em bandeirolas murmura ao vento
Os recados que são inventos
E ouve o som das assembleias
Lá do alto das camélias.

Nas vértebras de cristais quebrados
Moram épicas do que foi sonhado
E as lutas de tantas tertúlias
Marcaram sua carne em fúria.

No relâmpago viaja e anda
Ou nas estrelas que cintilam.
O chão duro é sua cama
E tem uns olhos que imaginam:

“Uma vez, tive família,
Mas, perdendo minha filha,
Visitei a insanidade
E encontrei felicidade

Neste paraíso achado,
Onde sigo encantado
De imagens e poesia,
Não me importo mais com os dias.”

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domingo, 11 de agosto de 2013

Mística


























Com esforço até o pescoço, posso ver
a casa ampla onde morava a santa.
Por fora é pequena, mas, por dentro, multi-iluminada.

Que me valham as palavras,
pois palavras não valem uma palha
para o amor ardente de santa Tereza D’Ávila.
A realidade, dita concreta, é, no fundo, abstrata
e o símbolo é precário para descrever
o acesso ao que não se mostra finito.
Do universo definido, nada se compara ao absoluto,
ao não figurável, ao arqui-distante e não físico.

E é na voz dos mistérios que me ponho místico,
neste feixe de emanações para um Jardim Absoluto,
pergunto aos mistérios por algum furo.
Não por uma porta secreta e subterrânea,
mas, por uma abertura momentânea
que me permita a chave de um minuto.
O Tempo é claro e escuro.
Suas cortinas densas de realidade aparente
não revelam o ínfimo e o último.
Assim, a ilusão de que tudo é imediato
é o que chamamos de realidade.
A impressão de que tudo é matéria
é o que vemos pela janela.
E o fim das coisas é um fim solitário,
depositado num relicário enquanto memória.
Mas, o caminho das escórias traça o trajeto das esmeraldas.
O movimento do cometa e de sua calda
risca uma jornada no céu.
Assim, arde um fogo abrasador por trás dos véus.
Fogo amoroso e divino de um cenário lindo que há de ser avistado.
Por isso, as palavras precárias tateiam o impossível.
São elas o instrumento reconhecível
de um tesouro não mostrado.



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Poema da Mordida













Tuas unhas: minhas mágoas fundas
E a onda de sangue que espuma
Bem antes que o dia durma
Indo flanar no espaço.

Sou teu capacho
Neste doer de prazer desbravado
Tendo-nos forrado com o seu lençol de flores

Aonde fores irei também
Lambendo o chão dos armazéns
À custa de algum trocado

Meu pescoço é maçã para tua arcada
E a cada final de semana
Espero pelo meu roxo de hematoma.

Estala o teu chicote
E mais a coceira aumenta
Por um vergão de sorte que não me sustenta.



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