domingo, 11 de agosto de 2013

Mística


























Com esforço até o pescoço, posso ver
a casa ampla onde morava a santa.
Por fora é pequena, mas, por dentro, multi-iluminada.

Que me valham as palavras,
pois palavras não valem uma palha
para o amor ardente de santa Tereza D’Ávila.
A realidade, dita concreta, é, no fundo, abstrata
e o símbolo é precário para descrever
o acesso ao que não se mostra finito.
Do universo definido, nada se compara ao absoluto,
ao não figurável, ao arqui-distante e não físico.

E é na voz dos mistérios que me ponho místico,
neste feixe de emanações para um Jardim Absoluto,
pergunto aos mistérios por algum furo.
Não por uma porta secreta e subterrânea,
mas, por uma abertura momentânea
que me permita a chave de um minuto.
O Tempo é claro e escuro.
Suas cortinas densas de realidade aparente
não revelam o ínfimo e o último.
Assim, a ilusão de que tudo é imediato
é o que chamamos de realidade.
A impressão de que tudo é matéria
é o que vemos pela janela.
E o fim das coisas é um fim solitário,
depositado num relicário enquanto memória.
Mas, o caminho das escórias traça o trajeto das esmeraldas.
O movimento do cometa e de sua calda
risca uma jornada no céu.
Assim, arde um fogo abrasador por trás dos véus.
Fogo amoroso e divino de um cenário lindo que há de ser avistado.
Por isso, as palavras precárias tateiam o impossível.
São elas o instrumento reconhecível
de um tesouro não mostrado.



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Poema da Mordida













Tuas unhas: minhas mágoas fundas
E a onda de sangue que espuma
Bem antes que o dia durma
Indo flanar no espaço.

Sou teu capacho
Neste doer de prazer desbravado
Tendo-nos forrado com o seu lençol de flores

Aonde fores irei também
Lambendo o chão dos armazéns
À custa de algum trocado

Meu pescoço é maçã para tua arcada
E a cada final de semana
Espero pelo meu roxo de hematoma.

Estala o teu chicote
E mais a coceira aumenta
Por um vergão de sorte que não me sustenta.



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sábado, 27 de julho de 2013

CANTIGA






A arte de arrematar fagulhas é meu objeto de estudo
porque o poente lúcido, apesar do escuro, ainda canta.
Pesquiso então os dias de chuva,
o cinza estendido, o movimento insólito do bólido,
e o que encontro é só esperança.

Estico a mão além do limite
porque por mais que eu tire
há sempre algo a alcançar.
Calibro, então, o grau proibido
e contrato galos arrombando manhãs.
Em cada caixa há desistências vãs
pois que  cada dia e seu segredo devem ser objeto de desejo.

Eu canto porque o incrível está escondido no intangível
assim como joio no trigo ou o ouro no cascalho.
Investir no extraordinário sob qualquer risco
é minha obrigação mesmo que num mar de ilusão
esteja náufraga a receita salvadora,
a miragem redentora, que abraçará meu coração.


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terça-feira, 23 de julho de 2013

LUMINESCÊNCIA






















vagalume
vaga sozinho
na amplidão
tem na lanterna
o coração

vaga longe,
vaga fundo
velejando
muitos mundos

vega longe
vaga perto
porque o mundo
é deserto

avenida
muito longa
é a vida
onde a sombra
é uma ida

lume solto
pulsa e some
nunca diz
o seu nome

lume claro
aparece
onde chega
minha prece:

Que a saúde seja sempre
o meu melhor presente!


...

sábado, 6 de julho de 2013

Cântico











Um pombo pousou em meu ombro
em forma de sopro e não houve assombro.
Um pombo com jeito de sombra que vive
nos altiplanos rasgou o meu silêncio
e fez a colina clarear meus escombros.

A noite nova, de lua nova, relampejou
sua treva nervosa deixando à mostra
uma ferida  insepulta em formato de rosa.
Era a minha pergunta
que nunca tivera resposta.

Da vertigem, desci à origem
e a asa misteriosa - em nada secreta -
fez da enxurrada perplexa, magnética,
um vagido de virgem
abrindo caminho
para o horizonte azul-marinho.

E a manhã forçou seu pouso no escuro
para a palavra final que procuro
A poesia é isso: um esforço colaborativo
nas instalações elétricas para dar voz às pedras.


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sábado, 8 de junho de 2013

Fotossíntese













                                Para Karla Nascimento


Quando avistei você,
preparei-me em gestações de cor,
formiguei-me em gols de garrincha,
tornei-me um balão suspenso em furores.

Desde que enxerguei você
eu me enchi de luz,
meu amontoado se desenlaçou
e passei a fraudar palavras de namorado
em poemas e canções alheias.

Você chegou assim bem na horinha
com o seu guindaste, suas flores de hipocampos,
suas lambretas de mar em fraternidades de poesia.
Chegou tornando-me todo hidrelétrico em desejo,
imprevidente nas imensidades e ilhéu em rumores.
Agora, as frases amorosas também se libertaram dos frascos
hermeticamente fechados e se encheram de ar.

Desde que lhe avistei 
eu entrei em estado de fotossíntese
e minhas fortificações se dissolveram.
Agora, a infantaria das palavras já não mais se esconde
para que eu diga-lhe o meu amor com inchaço nos olhos
e as resistências em frangalhos.

Os sentimentos fósseis tornaram-se sódio iluminado
e passei a pulsar fosforescências de rapaz
que há muito buscava a sua paz.

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sábado, 1 de junho de 2013

Pequena roda













Amor por dentro,
Saudade que chora.
Campo e tempo em carta:

As lojas do rio em flor.
O motor da pedra
Girando a folhagem nobre.

Morreu um menino n’água.
Foi banhar-se depois da escola,
Foi reinar na água barrenta.

Noites longas. Soluço de mãe.
O menino sumiu num chupão.
Ao terceiro dia ressurgiu dos peixes.

Subiu ao céu num roxo balão
E, de uniforme azul e branco,
Pousou-se anjo nas mãos de Deus.
Cá na terra, os olhos dele viraram abóbora
no cemitério Santa Rita.

Trança rama, trança flor
rodeando cerca e se espraiando.
Na feira, procuram os olhos do menino o paladar
De outros meninos - em flor. 



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