sexta-feira, 22 de março de 2013
Debaixo do Jacaré
Debaixo do jacaré há um redemoinho sem saci,
uma cartilagem de abacaxi,
um céu pesado sem estrelas,
uma guaxima sem sabiás laranjeira.
O jacaré é monocórdico tambor
que enche de mornidão o tempo,
é contentor da maré vazante
que atravessa paredes
e que inibe o azul acessível à população,
um azul emudecido em seus marulhos de cantor.
Debaixo do jacaré há um silêncio amordaçado,
uma rotina cimentada em laje
que não nos permite receber
canções e camélias,
que não nos permite enxergar as cores vivas
e assim, com os olhos cavos,
ficamos mais tristes,
com a voz arrastada, ficamos mais calados.
Debaixo do jacaré está o outrora -
porcelana da china e corpo de angina -,
está o agora - trêmulo bordão do impossível -,
está o futuro multiplicado em ostras
num escuro onde não reluzem pérolas.
Debaixo do jacaré
o bandalhismo triunfou no filme,
os cerzidos amarraram os vulcões e
os muros inequívocos apartaram os bem-te-vis
Porque o jacaré é a rotina sem rosas,
é quando nos distraímos e nos perdemos
do oriente que nos guia no canavial
e no oceano que intuímos.
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sexta-feira, 15 de março de 2013
Epifania
Não foi por interesse,
mas com todo interesse do mundo.
Não foi resplandecência, mas uma luz tão clara
que não se oculta, tão firme que não cintila,
tão óbvia que não se afirma.
Não foi um fulgor abrasador,
mas aquele que desperta sutilmente,
que alimenta e não fere,
que ilumina e, por isso, determina,
e que tem na gentileza o seu melhor brilho.
Foi na clara consciência, clareza esguedelhada
de luminescência, estrada iluminadora
onde as formas iluminadas se tornam acalmadoras.
Lua aclarada, acolhedora na prateada influência
dos signos fluidos, das sapiências flamadas,
das rosas de luz encantadas
por sobre os castiçais do tempo.
Não foi por acaso, mas de caso pensado,
bordado com fios de ouro que são vias
em laços invisíveis num caos ordenado
que fiquei aqui te esperando o tempo todo,
que viajei por muitos mundos
enquanto estavas parada,
que soprei recados no vento que a ti chegaram,
que chumbei os ouvidos em cimento quando
por mim, inutilmente, me chamavas.
Agora vejo o óbvio:
estiveste aqui o tempo todo,
estiveste em mim sem que eu a avistasse.
Agora te sinto nesta paz interminável,
nesta manhã duradoura onde o poente
é mera ilusão pois, mesmo na escuridão,
posso deitar em teu colo e sentir
o carinho e o poder das suas mãos.
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sexta-feira, 8 de março de 2013
Circo
A palavra se esconde
numa pele de pomada
(tê-la é imprescindível)
Sua pausa se confunde
com o silêncio
(ponte-pênsil para o nada).
Mas o nada é nada mais
que a própria palavra
encerada.
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sábado, 2 de março de 2013
Amor líquido
Porque os laços do amor são muito finos,
ama-se com o olhar perdido
vagando as ondas de uma multidão.
As ondas chegam e vão.
Se os laços do amor são muito líquidos,
ama-se com o olhar contido
sem espraiar o mar do coração.
Os olhos fogem da liberdade
para ver apenas a escuridão de uma prisão
Se os laços do amor são muito rápidos,
cada momento é vão.
Apesar de único não é precioso,
vale muito menos que meia-volta de pescoço
a buscar outro amor na multidão.
Mas que amor é esse
tão fluido e passageiro
que bem aparece certeiro e já some?
Defini-se amor por inteiro
mas quando termino de
pronunciar o seu nome
já acabou o tal amor.
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Assim falou Zaratrusta
Nem a História da Filosofia,
nem a Ciência, nem a Religião.
Eu só me situo no âmbito da Paixão.
Por isso, podem chamar os pássaros!
Que venha cada qual com o bico afiado
impingindo lacerações e felicidades
nas rapsódias em retalhos:
os pássaros de Marte, do gozo, da Arte,
feito vendilhões e biscates.
Os pássaros, que bem sabem a alma e seus tesouros,
os gases voláteis, os cães e as sombras em combustões.
Agora podem chamá-los.
Passei o dia inteiro dando pancadas na fumaça
e eis aqui o homem cansado.
Eis aqui o homem que precisa de outra jornada
em cujas águas revoltas e sem destino
não haja o singelo regato campesino.
Eis agora um homem perdido e que ama se perder.
Há nele um vazio de tabernáculo a arder.
Os arames estão desarmados e os escuros, emoldurados.
Podem chamar os pássaros.
Aqueles que trazem o cimo dos prédios
em forma de remédios.
Os que viajam em altíssima velocidade
para arrebatar montanhas dissolvidas.
Já retirei a vidraça dos olhos
para receber o assédio que vivifica.
Preparei meu cabedal de lama e o lençol
da cama para pousar imagens
de todos os pássaros que sejam espaçonaves.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
À sombra do dente
Para o anseio de conhecer-se a si mesmo
o Sol é uma bola esbranquiçada.
Ao erguer-se da poltrona
ela cospe uma bola de sangue,
depois deita com a boca anestesiada.
A perfuratriz murmureja e faz
escavações arqueológicas
nas regiões do submundo.
Ela sente que não acredita em mais nada.
Na raiz da crença, abaixo do dente,
está a amálgama de chumbo.
Ao fragmentar-se em pedaços,
o metal é cuspido na pia.
Um filete intermitente de água
dissolve-lhe a opinião sobre a justiça,
política, filosofia e religião.
Agora, só existe a boca anestesiada,
e assim ficará até que volte para a casa.
Até poder sentir novamente o gosto da vida
gerado por outra
metanarrativa.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Estória de bairro
ponte, serpente:
céu da boca beijado
amor apressado
esteve ausente
o sargento fardado
do antigo sobrado
e aí, de repente,
ao chegar de viagem
à noite, cansado
tirou da sua frente
a densa folhagem
que havia plantado
sacou do revólver
fazendo uma poça
com um só disparo
matou a esposa
e também o amante
que estava deitado.
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