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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Estandarte


















Para enfrentar a cobra áspera
e fria do bambuzal da abadia,
o embornal está repleto de recitações.
Carrego as palavras como quem
carrega um estandarte
porque as palavras agem.

Se nesse agir, o que enxergo é miragem,
digo que valerá a pena
porque cultivo sempre a esperança
mesmo sem Dulcinéia ou Sancho Pança.

Eu escrevo porque tenho medo
e a embarcação de palha,
retirada do coração, é a
salvação do meu degredo.

Quem me guia é a estrela mais alta
e, em minhas faltas,
coloca em minha boca
frases que não são minhas.

Com isso, avanço ao longo das trilhas
e exploro paisagens desconhecidas,
recitando encantamentos.

Não vejo monstros nem dragões
nos moinhos de vento.
O que vejo é menos intransponível.
Mas há essa chama de compromissos
depositados no balaio das palavras
que pede a minha fala.
É assim que me visto de coragem e sigo.




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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A emoção
















Eu me esqueço muito quando busco
pensativo o fluxo que há eterno
e incrível atrás do mapa onde,
na sombra de uma emoção invisível,
posso descansar no conforto
de minha casa e me deixar conduzir
por uma enxurrada que escorre feito
cavalo selvagem despejando rosas
em estações de paradas.

O mapa é evidente, mas prefiro
não ver o mapa.
Prefiro ver, no lugar das estradas,
o fluxo de uma correnteza
de curso d’água que segue rápida
formando ondulações que me levem
à madre das fadas por entre as pedras
e as florestas de limo molhadas
onde moram as principais palavras.
Ah, as palavras de água! Tão geográficas!
Feito sangue caudaloso elas percorrem
o meu corpo e me causam uma enchente de alma!

Mas há aquelas que, densamente,
apontam o limite do espaço cujo
tempo faz morada.
A superfície sólida por onde
meus pés aportam e andam enquanto
dormem os minerais e a vegetação
se enverdece: - o chão das palavras.
Chão continental ou pó de palavra
que vaga, ilha solta em mim,
resquício, terra, estilhaço de granada
do qual me tornei sua casa.

Quando sofro ou festejo, as palavras
impulsivas formam uma fogueira
que me queima por inteiro.
Recolho, então, o fogo de suas brasas,
guardo suas flores e fulgores
e componho uma canção apaixonada.

Mas, em tudo quanto posso, sou aéreo
pois é no vento que respiro o ar
imensurável carregado de mistério.
No ar e em seu reinado atmosférico
é onde permaneço por entre brisas
e tempestades essenciais.
É onde, abstrato, deito-me entre
palavras e busco, silencioso,
o segredo dos elementos originais.


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