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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Globalização














A exemplo da antiga Roma,
a felicidade globalizada
afirma-se além fronteiras e é cosmopolita.
Bebe na taça o melhor da vida
e propaga o corpo de Alcibíades
pelo sinal do satélite nas miríades.
Mas, na verdade,
é esfaqueada em dívidas
e vive em lugares ermos da cidade.
Vive nas barrancas de rio
e nos morros de lama,
longe dos frigoríficos
e das lojas de utensílios.
O seu nome, a manhã baldia
não proclama e nem pronuncia,
porque vive sempre com fome
no banquete da tecnologia.
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sábado, 20 de setembro de 2014

Sem nome






















Carrega o menino sem teto a sua terra na alma,
um estilete, e uma cratera na goela.
A chuva, que lavou a roupa descorada,
fez purgar um rio na inflamação do ouvido,
que escorreu caudaloso pela calçada.

Carrega a sopa do último Natal e um pão velho –
cavalo manso liberto a vagar insepulto
com os fantasmas escapados de algum embrulho.
Às vezes, escapole-se das cordilheiras dos prédios
e vem chiar baixinho em vento andarilho no lixo vadio
a rosa do seu esôfago onde rosna um cão.

Outras vezes, a caridade da cidade
entorna restos de comida no lugar
em que passeiam as formigas.
Recolhe, então, cada migalha e partícula
e, com a cera da alma, encera o chão.

Da ojeriza dos outros, organiza
seu esconderijo de sombras,
habitado por vultos famintos.
E é nesse império fustigado
que envelhece em horas mortas,
invisível de porta em porta,
junto a outros meninos.


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domingo, 1 de junho de 2014

A rosa e o estômago













 

O sino que pendia sobre a torre badalava poemas de fome
O vento que varria morro acima chamava por seu nome
Era hora de levar o estômago vazio de quem não come
Era hora de esticar a mão na bacia da moeda que some

Antes estava deitado, prostrado em seu casebre
Estava deitado com o rato lhe corroendo a verve
Olhava deitado a greta da manhã e rua em febre

Antes, muito antes do sino bater
Muito antes do poema doer
Muito antes da rua ceder

Seu esôfago era uma volta que possui miolo de rosa
Era uma doca para embarcações à ilha morta
Era uma crucis de via torta
E um dia, quando tudo se acabou,
Já não zanzava a fome em arrepios
Apagou-se a existência invisível
Sumiu com a fome invencível
Simplesmente foi-se
como se nunca tivesse existido.


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